do tratado da reforma da inteligência

"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Canção da Felicidade : ideal de um parisiense - um tantinho de Anto


Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera em minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.


Morar, mui simples, nalguma casa
Toda caiada, defronte o Mar;
No lume, ao menos, ter uma brasa
E uma sardinha pra nela assar...


Não ter fortuna, não ter dinheiro,
Papéis no Banco, nada a render:
Guardar, podendo, num mealheiro
Economias pró que vier.


Ir pelas tardes, até a fonte
Ver as pequenas a encher e a rir,
E ver entre elas o Zé da Ponte
Um pouco torto, quase a cair.


Não ter quimeras, não ter cuidados
E contentar-se com o que é seu,
Não ter torturas, não ter pecados
Que, em se morrendo, vai-se pro Céu!


Não ter talento; suficiente
Para na vida saber andar,
E quanto a estudos saber somente
(Mas ai somente!) ler e contar.


Mulher e filhos! A Mulherzinha
Tão loira e alegre, Jesus! Jesus!
E, nove meses, vê-la choquinha
Como uma pomba, dar outra à luz.


Oh! grande vida, valha a verdade!
Oh! grande vida, mas que ilusão!
Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!


Paris, 1892



domingo, 7 de dezembro de 2008

gesso - um tantinho de manuel bandeira


Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
- O gesso muito branco, as linhas muito puras -
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a,
manchou-a de pátina amarelo-suja.

Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica
de tisíco.

Um dia mão estúpida
inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes
fragmentos, recompus a figurinha
que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda
mais o sujo mordente da pátina...

Hoje esse gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.

balada do mangue - um tantinho de vinícius de moraes

Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Lœlia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilingüidas
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé,
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu...
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes,
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar
Ó misericordiosas!
Glabras, glúteas caftinas
Embebidas em jasmim
Jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim
Cantais, maternais hienas
Canções de caftinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.
Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos heróis!
E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!
Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!
Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?
Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?
Por que não vos trucidais
Ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

um tantinho de: Carlos Drummond de Andrade


O Elefante



Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos,
esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008


em meio a massa do mundo
um vazio fez-se chumbo
se vestiu de soldado
e amou a leveza
presa
à natureza da bailarina
presa
ao nada
feito pose de papel
sempiternamente esquecida
do que é voar


algo quer descer
algo quer voar
como ajustar o desajuste
que é amar ?


então
o mudo mundo abstrato da guerra
esqueceu-se de brincar
e
cedo fez-se ato
fez-se água, fez-se fogo
fez-se tudo o que há


e
depois de tudo
algo do nada feito estrela
algo do nada feito armas
incendeia-se num vazio
que quer voar
e no fundo
quedo
um resto de chumbo
inda quer amar

(for andersen)


sábado, 6 de setembro de 2008

na ante-sala



convido a todos para darem uma passada na palavraria dia 18 estarei lançando o meu primeiro livro será um prazer contar com a presença de amigos

um ab
jaime

sexta-feira, 22 de agosto de 2008


humores de quase espaço
vestem-me do inexato
que percorro        
desde a entrada

o passarinho não se cansa a dar de bico no espelho

o menino
escondido embaixo da cama
avança sobre si
e a traça
retraça planos de desconstruir
as coisas que se sabe

sente           quases de tempo se calam
no pragmatismo das horas
o que guarda ?
do que se guarda?

agora
algo se impõe
ante os escolhos
do menino
a mão empunha o destino
só falta a de-cisão

domingo, 17 de agosto de 2008



verdessência
água correndo adiante

lírios crescem indolentes
vicejam em branco

há sempre onde chegar
um lugar onde se guardam
infâncias
permanências
indecências

pego tudo com a mão
que de tantos dedos
esquece que é uma

quinta-feira, 17 de julho de 2008


(grupo corpo - coreografia: bach)


silêncio

a corda tomba o balde
que se atira
funduras

água é cabimento
feito o corpo
que me pesa
e preenche

outro corpo

me agarro

esqueço
que o que me cabe
brota de dentro
e permanece
azul

sábado, 12 de julho de 2008

algo de sentimento mal-quebrado

meio mar meio sal

extemporâneos de visgo verde musgo

cancelizam-se

dentro ao tempo

fazem-se e permitem-se ser

algo

mesmo que malbaratada vida

algo contrito de tanto conhecer-se

atônito de tanto te querer

rastro incerto na água do prende-musgo

pedra mesmo que feita de incerteza (esquecida) pedra é

e no torvelinho do desespanto

a lua come horas cansadas de arrependimento

brando e branco feito olhos que se desreinventam no

[fim do jogo

e contudo

indaalgo de sol



solinho


a querer se acordar por sobre o mar



quinta-feira, 26 de junho de 2008

Trago aos leitores do blog um trecho da crítica de Ronald Augusto, poeta, músico, letrista e ensaista, ao meu livro Tramas de Orvalho. A íntegra pode ser encontrada no site www.artistasgauchos.com.br, com acesso pelo nome do colunista.

Deisi Beier se sai bem com as diversas soluções metafóricas mobilizadas em seu livro, tanto que por meio delas consegue incorporar a persona da “catadora/ das surpresas”. Perturbações de sentido incrustadas em complexos visuais, e transportados, por sua vez, aos versos, à enunciação de uma fala em simulação de transe. No mesmo poema, de onde saquei a imagem apresentada acima, o vocábulo “mutante” ocupa, em termos icônicos, um espaço significante e indicial no branco da página (pág. 68). Antes, na pág. 56 o poema já lançara “no ar a senha” do livro: uma “profusão de formas”. E formas que falam. E é, portanto, a partir dessas formas em movimento que o poema-livro conquista a “interação entre opostos”. As “águas escuras” e desejosas das seduções tangendo essa lira de sinestesias presentificada nas metamorfoses orgânico-verbais de Tramas de orvalho. Uma estréia que merece leituras interessadas. Excertos de poemas de Tramas de Orvalho:
“o fogo líquido/ passou pela cabeça/ as bolhas de sabão/ se tornaram pérolas/ em cada canto há ostras/ ideogramas de noite” (...); “como o pensamento/ abre espaço para novas delícias” (...), pág. 30. * * *
“ar// luz nas transparências/ translúcidos/ vidro/ solidário/ uma garrafa/ e o azul” (...), pág. 44. * * * (...) “no jardim/ embrulhado para presente/ o brilho// aos convidados/ envelopes vermelhos em movimento” (...), pág. 52 * * *
(...) “úmidos cogumelos crescem nos troncos/ não há cortinas” (...); “morrer: vazio de improvisos”, pág. 66

Mais uma vez, minha alegria pelo trabalho reconhecido.

quarta-feira, 4 de junho de 2008


(foto: grupo corpo - "Benguelê")


ossos e veias

pele e entranhas

a voz que corta


peças de um quebra-cabeça

que não mais se encaixam

demônios guardados em

jaulas de algodão


quanto pode durar

a solidão que ronda nosso canteiro

quando a casa toda vira um imenso

corredor?


ficam notas que não encontram concerto

a fragilidade que toca

quando o melhor não foi suficiente


as chamas queimam somente quando

alimentadas


peco minha essência

com sede e fome

enlouqueço de pedras limos e musgos

aves balanço

imaginando alturas


cuspo o sangue do meu fracasso

pela desistência


segunda-feira, 2 de junho de 2008



PALAVRARIA – LIVRARIA-CAFÉ

CONVIDA PARA


MAFUÁ DE MALUNGO:

Bate-papo entre Ronald Augusto e Jaime Medeiros Jr.


11 de junho de 2008, quarta-feira, das 19h às 21h

Na Palavraria – Livraria-Café


Jaime Medeiros Jr é poeta porto-alegrense nascido em 1964. Tem no prelo, seu primeiro livro intitulado Na ante-sala. Médico pediatra. Participou da organização do primeiro Portopoesia. Hoje faz parte da produtora Portopoesia, organizadora da segunda edição do evento, que se realizará em outubro deste ano. Mantém com a poeta Deisi Beier o blog www.filhosdeorfeu.blogspot.com


O projeto Mafuá de Malungo, concebido por Ronald Augusto, prevê um encontro por mês até o final desse ano, ocasião em que o poeta convidado conversará com Ronald a respeito de suas obras.


quarta-feira, 28 de maio de 2008


hoje
comprei mel e canela
pras maçãs de amanhã

sonhei contigo
mas tudo se fez outro dia


maçãs, mel e canela
e depois
só um pouco de café para despertar

segunda-feira, 19 de maio de 2008


(foto: missa do orfanato - grupo corpo)


os pés não pisavam macio

se equilibravam entre

pedras e restos

a terra não era caminho

mas a sujidade

e o verde agora isento de vida

era a espera que cobria a pele

na água do poço


nem a luz acalma

a distância entre o fundo e a corda

que lhe alcaça o balde


quarta-feira, 14 de maio de 2008

domingo, 11 de maio de 2008


em meio

ao rumorejo do desejo

gentes

que a gente toca

vejo

e

por ora

me fixo no perseverante percevejo

que percebo sobre a mesa lindeira

lindeira aos liames do que almejo

lindeira aos lindos olhos em que me vejo



agora só

resta saber como te amar

te amar sem te querer

e como escapar

ao destino de me comportar só

aqui

lindeiro a ti ?


quarta-feira, 7 de maio de 2008


O poema do meu livro que o poeta Aldo referiu em seus comentários é:

na grama cheirosa
descansam tecidos


quarar amacia
fibras




Não sei se é do conhecimento dos leitores e dos visitantes do blog minha primeira publicação, pela editora Movimento, datada de dezembro de 2007, sob o título "Tramas de Orvalho". Ofereço a todos os versos que, cuidadosamente, ali constam e, a respeito, aí vai a impressão de outro poeta e leitor atento, Aldo Guido Votto, ao receber meu livro:



"Cara poeta,


Acabo de acabar, pela primeira vez, uma leitura do livro que gentilmente me presenteaste.


Caso fosse instigado a eleger um substantivo para sintetizar a poética das tuas "Tramas de Orvalho", muito provavelmente, optaria pelo abstrato 'modéstia'. E logo percebi, que, embora de súbito, teria combinado minhas impressões desta primeira leitura com as três acepções que o velho mestre Aurélio registro para o termo. Senão vejamos:


1. Ausência de vaidade, despretensão, desambição, simplicidade.


Embora não seja possível uma ausência total de vaidade em quem se expõe escrevendo e publicando, a pequena proporção deste sentimento na motivação do teu livro aparece já na capa evidenciada pela opção pelos tons escuros, a imagem em segundo plano sugerida mais que mostrada, e a silhueta das poucas libélulas e suas asas transparentes, como a porção viva do cenário inerte, em vez do esplendor de formas e exuberância de cores das borboletas.


Depois, o próprio título segue afirmando a simplicidade. Para quem já saboreou o poético da cena bucólica e matinal das teias de aranhas, invisíveis nas outras horas do dia, reveladas pelas gotículas do sereno absorvidas pelos fios deixados nos caminhos naturais de possíveis presas, salta o sentido transmutado pela tua autoria em 'tramas de erotismo'. E com quatro versos e oito palavras concedes ao leitor o direito de construir a descrição de uma sedução que se consuma na manhãzinha, inda que esta, eventualmente, não tenha sido tua intenção original, como tantas vezes ocorre com quem escreve.


2. Reserva, pudor, decência, gravidade, compostura.


Assim, me pareceu circunstância toda tua verve, mas em especial, aquela porção dirigida ao encontro de pares, ao amor erótico. Neste tema, embora perceptível a perplexidade prazerosa da vivência pessoal desta pulsão que todas as artes celebram ao longo dos séculos, da 'ânsia da vida por si mesma', toda a declaração é feita através de um cortinado, todo o manifesto é pouco mais que silencioso: o 'tsunâmi' está lá, apontado, mas não descrito.


3. Moderação, sobriedade.


O teu estilo de apontar o poético, sem sobrecarregá-lo de muitas qualificações, virtudes ou defeitos que sejam, de novo, concede o privilégio do acabamento ao leitor e é uma afirmação da moderação e da sobriedade.


Muito de beleza, muitíssimo do poético escondido no dia-a-dia, no detalhe, nos pequenos objetos, nas práticas mais prosaicas, está apontado, sugerido, exposto sem excesso de debrum ou exagero de pesponto, por ti no caderno 'o lugar'. Meu momento inestimável de leitor é a tua apropriação do verbo 'quarar'. A sonoridade e a impossibilidade de qualquer polissemia são um presente modesto, moderado e sóbrio ao leitor-co-autor das tuas 'Tramas...'. Para que tenhas uma idéia da idéia que me veio a respeito desta moderação, segue aí uma paráfrase, num estilo de mesmo sentido, mas direção oposta:



janela verde.


brilho branco.


dormem na relva


o organdi e a alpaca,


a flanela e o brim,


a casimira e o cetim,


a pelúcia e o percal,


a sarja e o fustão,


a cambraia, o algodão,


e o linho,


que relva já não é


e agora quara


para agarrar


o branco brilho


outra vez.



Isto é, possivelmente sobra texto para tentar emitir uma mensagem semelhante...


Bem, cara poeta, se me tivesses pedido uma sugestão para o teu segundo livro, penso que teria algo a ver com estas últimas reflexões. No meu caso espero que já tenhas recebido minha remessa do "Quatro Nomes", pensaria num segundo livro de mesmo sentido, mas direção oposta: mais modéstia e menos vaidade!!! E no teu, desculpa a ousadia, sugeriria exatamente o contrário: menos modéstia e mais exagero!!!


Obrigado pela satisfação em poder compartilhar contigo estes momentos de poesia.


Um grande abraço,


Aldo"



Nem preciso dizer o quanto feliz fico.


segunda-feira, 5 de maio de 2008


aguadas transitórias do pensar

gravam faces

sobre a face do nada

nada

esfacelado e grave

e a sombra dos dáctilos

sobre as àguas

finge formas

breves

feitas só

da recordação

do que se quer


terça-feira, 29 de abril de 2008


Santa Maria

mais uma vez

não muito mais que dezoito horas

tantas mortes depois -

fazer o quê ? -

e tudo ainda se põe

por trás às frestas dos afazeres

então

fui à casa de uma amiga

que hoje mora

na mesma rua em que morou minha tia

pedaço de verdade dissonante

lugar

ali

onde me ensinaram a sentir saudade


sábado, 26 de abril de 2008


lembrete: gostaríamos de alertar aos leitores do nosso blog

que se quiserem deixar algum comentário geral ao blog

podem utilizar o nosso livro de visitas
"deixe sua letra"

aceitamos críticas

aplausos e o que mais vier

um ab


o bulício do gás

da água na garrafa plástica

diz

natural

fugaz e fugidiamente

o quantum de sede

em que me imbeberei

antes

do puro úmido da saciedade


quarta-feira, 23 de abril de 2008

domingo, 13 de abril de 2008


(foto: Cia. de Dança Deborah Colker - Espetáculo "Casa")



era um vento ventoso

um vento teimoso

e insistente

vagando sobre o verde

vento danado

encantado

tingido de sangue

a revolver estrelas

a pipocar cascalhos

vento de insinuar


evaporações


era um vento de não caber em lugar

vento de se instalar

de fazer lembrar

que nem sempre o que venta

é de esquecer


sexta-feira, 4 de abril de 2008



(foto: gaia companhia de dança)



não perdôo certos refinasensos

umas nostalgias canhestras

disfarces guardados atrás das portas


não tolero enfarsantes corações

as frias mãos trêmulas antes do tapa

calabeiços devorantes

nuvens escuras mergulhadas em desculpas



não me estendo na ausência de fibra

na oculta homisfera do aperto na jugumar

na voz em tempestura surda



afundassombras

desassossegos



invento meus limites

meu cabimento



ilusório


domingo, 30 de março de 2008

um tantinho de: Manuel Bandeira


Oração a Nossa Senhora da Boa Morte


Fiz tantos versos a Teresinha...

Versos tão tristes, nunca se viu!

Pedi-lhe coisas. O que eu pedia

Era tão pouco! Não era glória...

Nem era amores... Nem foi dinheiro...

Pedia apenas mais alegria:

Santa Teresa nunca me ouviu!



Para outras santas voltei os olhos.

Porém as santas são impassíveis

Como as mulheres que me enganaram.

Desenganei-me das outras santas

(Pedi a muitas, rezei a tantas)

Até que um dia me apresentaram

A Santa Rita dos Impossíveis.



Fui despachado de mãos vazias!

Dei volta ao mundo, tentei a sorte.

Nem alegrias mais peço agora,

Que eu sei o avesso das alegrias.

Tudo o que viesse, viria tarde!

O que na vida procurei sempre,

- Meus impossíveis de Santa Rita -

Dar-me-eis um dia, não é verdade ?

Nossa Senhora da Boa Morte


quarta-feira, 26 de março de 2008

PORTO ALEGRE DÁ POESIA - PROGRAMAÇÃO

Logotipo Carolina Timm

24 a 29 de Março de 2008
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo


24/03 - SEGUNDA

19:00 – 20:30
Porto Alegre na Poesia - Maria do Carmo Campos, com leitura de poemas por Gerusa Marques.

20:30 – 22:00
Troque um Livro de Auto-ajuda por um Livro de Poesia
Leitura da poesia de Marco Celso Viola por Mario Pirata


25/03 - TERÇA

19:00 – 20:30
Cidade do Meu Olhar - Liana Timm e Élvio Vargas

20:30 – 22:00
Leitura de poemas de Maria Dinorah, e Retrato do Poeta, poemas de Mario Quintana com o Grupo Cero.


26/03 - QUARTA

19:00 – 20:30
Gritos e Sussurros no muro da Mauá -Telma Scherer, Lorenzo Ribas, Diego Petrarca (Teia) e convidados

20:30 – 22:00
Poesia não é pra qualquer um
Leitura da poesia de Isaac Starosta por Mario Pirata


27/03 - QUINTA

19:00 – 20:30
A Poesia dos Anos 70 - Eduardo Degrazia e Dilan Camargo

20:30 – 22:00
Mate dois Coelhos com uma Quintanada Só
Leitura da poesia de Jaime Medeiros Jr. por Mario Pirata



28/03 - SEXTA

19:00 – 21:00
Heitor Saldanha, um Poeta Deletado - José Weis
Coleção Petit Poa-Cadê a Poesia que Estava Aqui ? - José Antônio Silva.
A Poesia de Eduardo Guimaraens - Livia Petry


21:00 - 22:00
Adote um Poeta, Alimente e Dê Moradia
Leitura da poesia de Mario Pirata pelos poetas participantes



29/03 - SÁBADO À TARDE

16:00 – 17:30
Questões da Poesia Hoje - Sidnei Schneider, Marco Celso Viola e Jaime Medeiros Jr

17:30 – 19:00
Quantos poemas faz um poeta, quantos poetas fazem um poema
Leitura da poesia de Sidnei Schneider por Mario Pirata


Patrocínio: SMC/ Prefeitura de Porto Alegre
Apoio: Centro Cultural CEEE Erico verissimo
Produção: PortoPoesia Produtora
Contato produção: Sandra Marques 9355-6479 kacimi@gmail.com
Assessoria de Imprensa: Sarah Goulart 9108-7624 sarahgou@terra.com.br





terça-feira, 25 de março de 2008


pedaço

algo duro

por entre o líquido travo

por certo inda dura em ti

cheio

de um correto des-temor

quinta-feira, 20 de março de 2008

takai


quando te vejo

suave arquitetura

serena arquiternura da canção

nada sobra

tudo visa

revelação

quando te vejo

sinto

meio que pra sempre

algo em mim se suaviza

e assim feito brisa

me usa


domingo, 9 de março de 2008

segunda-feira, 3 de março de 2008


café

e chuva

não me fazem mais triste do que sou

não espero mais por ti

nem sei se virás

quando amenizar a chuva

deixarei o café

e esquecerei de te esquecer

domingo, 24 de fevereiro de 2008


fiel às filigranas de espanto

que recolho

decolo parto

abro o olho

te vejo

nos teus olhos

escolho um pouco de tudo

também

um pouquinho do que sou

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

sépia nº6


teus olhos escuros

claros de tanto ser

de tudo

nada querem esquecer

ainda

não sabem da saudade

e do saber confuso

que se acha nas coisas

que irão morrer

sábado, 2 de fevereiro de 2008

sépia nº5

flora florinha

meu amor

teu sorriso contente

se me des-mancha

não te sei

mas te compreendo

pequenina flor


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

sépia nº4


e a tesoura esqueceu a cabeça

contudo ainda deixou algo de sorriso em flor

agora

isso já não importa não

o que importa mesmo

é a mão que afaga

e a porta

que a mestra porta

bem lá pro fundo

do teu coração


sépia nº3


um dois três

eu quero

quatro cinco seis

não quero

com tanta querelança

onde me seguro ?

diz rafaela

pequeno sol escuro

com esse seu mirar

que já não tarda

a se apartar


sépia nº2


por trás do vazado

escondeste um olhar

mas ainda

é cedo

cedo demais

para acordar

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

sépia nº1


[ontem

num bar da cidade

comprei a imagem (3 reais)

hoje

fez-se versos]



três fileiras de olhares de frente pra vida

momento zero

a espera de tudo

e

tudo

ainda

por acon-

tecer


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

coisas que perdemos no caminho



o silêncio a tua luz apaga

mesmo assim

boa contente e vaga

fluorreminiscência de ti

pra sempre

se me acenderá