do tratado da reforma da inteligência

"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Não sou muito dada a gostar de prosa, mas andei lendo alguns contos de Machado de Assis (1839-1908), um dos maiores nomes do Realismo brasileiro e, por ter juntado o estilo impecável e a ironia à crítica mordaz e o humor, vale mencionar um deles em especial, O Espelho, esboço de uma nova teoria da alma humana, e algumas de suas passagens brilhantes. Nesse conto, o personagem central, chamado Jacobina, revela como reconheceu sua identidade, por volta de 25 anos, quando foi nomeado alferes da guarda nacional e vestiu uma farda. E sentencia:





Não há uma alma, há duas... Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa.


Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades perde naturalmente metade da existência, e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.


Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...


... muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. ...


Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia.


O alferes aliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado.


Os fatos explicarão melhor os sentimentos, os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça enamorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando.


Mas o certo é que fiquei só,... Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exerior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil.


Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século, no velho relógio da sala, cuja pêndula, tic-tac, tic-tac, tic-tac, feriam-se a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever! For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: Never, for ever! For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga.


Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único – porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar...


De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão e linhas, a mesma decomposição de contornos...


Lembrou-me vestir a farda de alferes... e como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e ... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono.




Analisando o conto, o professor Marcos Bondam entende que O Espelho é a matriz de uma certeza machadiana que poderia formular-se assim: só há consistência no desempenho do papel social; aquém da cena pública, a alma humana é dúbia, ou seja, os tipos sociais (marido, comerciante, político, etc.) teriam um comportamento previsível, o que não ocorre individualmente com as pessoas. ... O desejo individual se esconde quando as personagens se limitam a desempenhar seus comportamentos sociais. A alma exterior, que olha de fora para dentro, segundo Machado de Assis, é uma casca ou couraça que as pessoas criam para sobreviver na luta social. Mas algumas se prendem a elas tão radicalmente que eliminam sua alma interior, seu verdadeiro EU, deparando-se com um nada, um vazio completo. O homem é um ator social.


Pura poesia!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

a hora de começar de novo

a última hora
sem música
direta
a mais ardida


a navalha em busca do que se manteve reservado
os limites muito além dos pés no chão


lágrimas


até não poder mais agarrar as páginas líquidas



sexta-feira, 26 de novembro de 2010



Dia desses me deparei na Feira do Livro com uma publicação da L&PM, um livro de crônicas do nosso poeta Affonso Romano de Sant'Anna, Tempo de delicadeza, em que trata, delicadamente, de temas corriqueiros da vida com o olhar único de poeta. Trouxe pra casa e tenho desfrutado com prazer dos textos que ali encontrei. Dentre eles, o que traz o nome do livro e crônica de abertura, Tempo de delicadeza, fala da necessidade de sermos urgentemente delicados, diante da violência, da velocidade, da rudeza que vem tomando conta do nosso cotidiano. O poeta cita, segundo suas próprias palavras, "nosso sedutor e exemplar Vinícius, que há vinte anos nos deixou, delicadamente", que era um profissional da delicadeza e que, na sua Elegia ao primeiro amigo, disse:



mato com delicadeza. faço chorar delicadamente
e me deleito. inventei o carinho dos pés; minha alma
áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre
um corpo de adúltera.
na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com
todas delicado e atento.
se me entediam, abandono-as delicadamente,
despreendendo-me delas com uma doçura de água.
se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
desprende esse fluido que as envolve de maneira
irremissível
sou um meigo energúmeno. até hoje só bati numa
mulher
mas com singular delicadeza. não sou bom
nem mau: sou delicado. preciso ser delicado
porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
como um lobo.


 
Encontrei nesse poema uma verdade singular, traduzida por Affonso com maestria: porque somos ferozes precisamos ser delicados. E que sejamos, então, delicados. Se necessário for, cruelmente delicados.
 
 
 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010



escada pede um lugar de morar
marcenaria alinhada
madeira aparente
peroba-do-campo e descanso às lembranças



o sobrado tinha



refúgio não garante proteção



sábado, 23 de outubro de 2010

guardo muitas noites
e seus pesadelos atrasados
vários retratos nunca tirados
de dentro de meu quarto
e a chuva esquecida de outonos
que brota da boca
e sopra palavras
versos afora



nos olhos, a cor repete gestos obscenos
vigiando as manhãs mal dormidas
as horas jamais antecipadas
não escritas nos papéis
onde constara meu nome
onde não corria qualquer pedaço de rio
e a água estagnada
cheirava a morte



quinta-feira, 14 de outubro de 2010


beijo onde não queres beijo


a ferida aberta a fórceps


a decência escancarada


tua alma teu trauma


tua entranha


beijo





segunda-feira, 4 de outubro de 2010



Aí vai mais um poema do novo livro, Córrego de amarras:




olhos
dois lagos que piscam
concisão do azul indeciso
violinos silvestres
saturados de substância
empalidecem lilazes




lívidos lírios




cair-se de amor de suma altura
e aprender a nascer velho a cada dia
a tecer invenção
a calar iniquidades
na insanidade que é ter
garça distraída
além do limite do isento
livre como ser ninguém




caminho por escrito
nessa caligrafia coreografada
em casa larga
boca-traço sem nome
o prumo do riso
de um dizer sempre oblíquo

quarta-feira, 22 de setembro de 2010


De hoje em diante, caminho sozinha. A incompetência das pernas ainda parece maior do que a vontade de prosseguir, sem parceria, nessa empreitada, mas quero muito tentar. Confesso que a contribuição do Jaime fará muita falta, já que ele é quem vinha tocando quase tudo sozinho por aqui. Seguirei no mesmo rumo, entretanto. A cara do blog já mudou, mas só um pouco e, não estranhem se isso se tornar habitual, pois adoro mudanças. Faz parte de minha essência geminiana. Para conhecimento de todos, acabo de lançar meu segundo livro, pela editora Movimento, chamado Córrego de Amarras, lançamento esse que se deu no dia 10 de setembro passado, na livraria Palavraria, noite muito feliz para mim. Então, aí vai postagem com um dos poemas que constam do livro:




na sua voz, o que há de intratável

no gesto do corpo apanhado em ação e imobilizado

o curto fôlego das figuras

as palavras, nunca loucas, estão, no máximo, perversas

e, nas mais suaves, o sobressalto de um suspense



engendro monstros para não subestimar o poder do acaso

dissolvido, não sou recolhido em parte alguma

no ruído de um rasgão

o horror do estrago ainda mais forte do que a angústia da perda

plantado no lugar, sofro feito um pacote num canto esquecido da estação

falo pelo buraco na fechadura da linguagem

colho fungos na raiz do poema sequer dito

e minhas verdades não posso ler em qualquer recanto do corpo adverso

digo meu plural onde me ofereço em carinhos

mesmo quando nada tenho a dizer

ainda assim é a ti que digo nada

e te amo como se deve amar, em desespero, asfixiado de dor

num relâmpago frio

sequer o belo véu do silêncio

pode chorar todas as lágrimas do meu corpo



peço à pele que responda ao meu afeto

como se tivesse dedos na ponta de minhas palavras

cultivo esse roçar na escrita seca e obtusa

totalidade indelicada



o que me sufoca

inquietação que desgasta o ser

e no entanto não mata

porque não se morre de dor



escalpelado, sou poeta apenas quanto ao começo

faço luto à minha própria sinceridade

o corpo arrebenta em dizer quando calo minha voz

e escureço minha própria vista para não ser visto

sábado, 11 de setembro de 2010

despedidas [jaime]

Hoje deixo o blog. Migro para o novo blog. Resolvi após pensar um pouquinho partir novamente fazer um blog em modo solo. Deixo este espaço na certeza de ficar bem representado pela minha amiga Deisi Beier. Poeta das mais interessantes e agora com o seu novo livro Córrego de Amarras. Lançado ontem, dia 10/09/10.
Agora vocês me encontrarão em dois blogs, um destinado ao que designei prosa ligeira, que se chama tênues considerações e outro, destinado a poesia e a de um tudo sobre poesia, que se designará o arco da lira

domingo, 15 de agosto de 2010

Um tantinho de Vínicius de Moraes

Pátria Minha


 

A minha pátria é como se não fosse, é íntima

Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo

É minha pátria. Por isso, no exílio

Assistindo dormir meu filho

Choro de saudades de minha pátria.


 

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:

Não sei. De fato, não sei

Como, porque e quando a minha pátria

Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água

Que elaboram e liquefazem a minha mágoa

Em longas lágrimas amargas


 

Vontade de beijar os olhos de minha pátria

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos

E sem meias, pátria minha

Tão pobrinha!


 

Por que te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho

Pátria, eu semente que nasci do vento

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço

Em contato com a dor do tempo, eu elemento

De ligação entre a ação e o pensamento

Eu fio invisível no espaço de todo o adeus

Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido

De flor; tenho-te como um amor morrido

A quem se jurou; tenho-te como uma fé

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito

Nesta sala esrangeira com lareira

E sem pé-direito


 

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova

[Inglaterra

Quando tudo passou a ser infinito e nada terra

E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu

Muitos me Surpreenderam parado no campo sem luz

À espera de ver surgir a Cruz do Sul

Que eu sabia, mas amanheceu...


 

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha

Amada, idolatrada, salve, salve !

Que mais doce esperança acorrentada

O não poder dizer-te: aguarda...

Não tardo !


 

Quero rever-te, pátria minha, e para

Rever-te me esqueci de tudo

Fui cego, estropiado, surdo, mudo

Vi minha humilde morte cara a cara

Rasguei poemas, mulheres, horizontes

Fiquei simples, sem fontes


 


 


 

Pátria minha ... a minha pátria não é florão, nem ostenta

Lábaro não; a minha pátria é desolação

De caminhos, a minha pátria é terra sedenta

E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular

Que bebe nuvem, come terra

E urina mar.


 

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem

Uma quentura, um querer bem, um bem

Um libertas quae sera tamen

Que um dia traduzi num exame escrito:

"Liberta que serás também"

E repito!


 

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa

Que brinca em teus cabelos e te alisa

Pátria minha, e perfuma o teu chão...

Que vontade me vem de adormecer-me

Entre teus doces montes, pátria minha

Atento a fome em tuas entranhas

E ao batuque em teu coração.


 

Não te direi o nome, pátria minha

Teu nome é pátria amada, é patriazinha

Não rima com mãe gentil

Vives em mim como uma filha, que és

Uma ilha de ternura: a Ilha

Brasil, talvez.


 


 

Agora chamarei a amiga cotovia

E pedirei que peça ao rouxinol do dia

Que peça ao sabiá

Para levar-te presto este avigrama:

"Pátria minha, saudades de quem te ama ...

Vínicius de Moraes".

sexta-feira, 16 de julho de 2010

um tantinho de Murilo Mendes


A Outra Infância

 
Meninos que daqui não vejo
Dançam e cantam de roda no terreiro ao lado.

 
O menino que também brincou de roda
Seria mesmo eu? Creio que não.
(Viramos crianças
Ao imaginar a criança que não fomos.)
Já era outro menino, já pensava,
Iluminando-me com duas luas
- Uma na cabeça.


domingo, 25 de abril de 2010

Ser – um tantinho de Carlos Drummond de Andrade



 

O filho que não fiz

hoje seria homem.

Ele corre na brisa,

sem carne, sem nome.


 

Às vezes o encontro

num encontro de nuvem.

Apóia em meu ombro

Seu ombro nenhum.


 

Interrogo meu filho,

objeto de ar:

em que gruta ou concha

quedas abstrato?


 

Lá onde eu jazia,

responde-me o hálito

não me percebeste,

contudo chamava-te


 

como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo

aspira a criar-se.


 

O filho que não fiz

faz-se por si mesmo.

terça-feira, 30 de março de 2010



do abismo da desordem
como a água que é outra a cada instante
assim trago os sentimentos
tenho somente meia razão
e está tudo tão quieto que
mesmo o morto ao lado quebraria
se o tédio faz parte de uma vida
de sentimentos honestos
os homens de boa-vontade
têm um ar magoado
um silêncio de multidão
e a necessidade de poder contar a sua história
porque estar também é dar
e o corpo guarda a solidão do espírito
no impasse do si mesmo
uma solidão árida e grande
a derrocada de um mundo
vista da pequena altura de gente

os males secretos dormem de dia
como baratas invisíveis
que sobem pelos ralos
enquanto a gente sonha

domingo, 21 de março de 2010

pequenas considerações sobre uma carta de Vitor Hugo



 
    O vosso artigo sobre Théophile Gautier, meu senhor, é uma dessas páginas que provocam a reflexão. Mérito raro, fazer pensar; dom unicamente dos eleitos. Não vos enganais ao prever alguma dissidência entre nós. Entendo toda a vossa filosofia (pois como todo o poeta, tendes filosofia); faço mais do que compreendê-la, admito-a; mas conservo a minha. Nunca disse a Arte pela Arte; disse sempre: a Arte pelo progresso. No fundo é a mesma coisa e vosso espírito é por demais penetrante para deixar de percebê-lo. Avante! É a frase do Progresso; é também o grito da Arte. Todo o verbo da Poesia aí está. Ite.
    Que fazeis ao escrever estes versos surpreendentes: " Os sete anciãos" e "As velhinhas" que me dedicais e pelos quais vos agradeço. Que fazeis? Caminhais. Avançais. Dotais o céu da arte de não sei que raio macabro. Criais um arrepio novo.
    A Arte não é perfectível, creio ter sido um dos primeiros a dizê-lo, portanto, sei disso; ninguém ultrapassará Esquilo, ninguém ultrapassará Fídias, mas podemos igualá-los; e, para isso, é preciso deslocar o horizonte da Arte; ir mais alto, ir mais longe, caminhar. O poeta não pode ir sozinho, é preciso que o homem se desloque também. Os passos da Humanidade são, portanto, os próprios passos da Arte. Portanto, glória ao Progresso.
    É pelo progresso que sofro neste momento e que estou pronto para morrer. (De uma carta de Vitor Hugo a Baudelaire)


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    O primeiro excerto em negrito parece de certo modo correto. De outro ângulo, na arte sempre sobra algo inacabado, portanto não corrijo Ésquilo ou Fídias, contudo estes, se eternos fossem, provavelmente estariam se autocorrigindo constantemente, por se crerem longe da perfeição. Portanto, a arte não é perfectível não porque ela seja perfeita, mas isto sim, por sempre estar a lhe faltar algo com que se lhe dê um fim, ou seja, pela sua incompletude.
    O segundo excerto em negrito me pareceria um tanto melhor se pudéssemos invertê-lo, dizendo: os passos da arte são, portanto, os próprios passos da humanidade. Ordem que nos obriga a descrer na função do artista desbravador, nos insere na realidade de um artista que anda, como de resto a humanidade, em círculos, tateando o desconhecido e firmando-se num terreno escorregadiço sobre o abismo, que nos conduz a este interminável confronto com a morte. Morte que, como o lobo na floresta, nos aponta e nos tange a trilhar este caminho sem fim.