do tratado da reforma da inteligência

"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."

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domingo, 25 de abril de 2010

Ser – um tantinho de Carlos Drummond de Andrade



 

O filho que não fiz

hoje seria homem.

Ele corre na brisa,

sem carne, sem nome.


 

Às vezes o encontro

num encontro de nuvem.

Apóia em meu ombro

Seu ombro nenhum.


 

Interrogo meu filho,

objeto de ar:

em que gruta ou concha

quedas abstrato?


 

Lá onde eu jazia,

responde-me o hálito

não me percebeste,

contudo chamava-te


 

como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo

aspira a criar-se.


 

O filho que não fiz

faz-se por si mesmo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

amigos de viagem


Comecei a tomar contato com Peter, Paul and Mary nos meados dos 80. Primeiro nas conversas com meu amigo Ivaldo Araujo, depois num LP lançado pela Band, onde ouvi pela primeira vez com consciência, pois Peter , Paul and Mary (PP&M) certamente fazem parte do inconsciente de quem nasceu na década de 60. Mais adiante, final dos 80 ou início dos noventa encontrei o LP Ten Years Together. Disco com vários dos seus hits (500 miles, blowin' in the Wind, if I had a hammer, lemon tree, early morning rain, Puff the magic dragon, leaving on jet plane). Comprei, um pra mim, outro pro meu amigo. Escutei muito àquele LP, me encantava o que nele considerava simples, despojado e acolhedor.
Nos tempos do planos econômicos que grassaram pelo país, houve momentos em que se tornou viável a compra do cd importado, quando adquiri vários de PP&M. Também tive o vídeo cassete do show Life Lines Live, onde convidam amigos, um deles Odetta, que canta House of rising Sun, uma maravilha, descoberta inesquecível.
Por que tanto PP&M por aqui agora ? Mary Travers morreu dia 9 de setembro de 2009 aos 72 anos. O que me obrigou a numa pequena tentativa de homenagem, compartilhar o que estes três companheiros de viagem me proporcionaram nestes últimos 20 anos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Uma pequena contribuição ao lirismo contemporâneo

 
   Ontem terminei de ler O Menino do Dedo Verde, havia escutado muitas pessoas elogiar o livro. É indiscutivelmente um belo livro. Também havia escutado muitas vezes repetirem uma comparação com O Pequeno Príncipe, no Brasil acho que ainda mais reforçada; pois D. Marcos Barbosa fez a tradução de ambos. Ambos falam de um menino. De sua descoberta do mundo. E de flores. Ambos são profundamente metafóricos. Mas me parece que devemos aprofundar um pouco mais a nossa comparação. Descobrindo não somente semelhanças, mas também suas diferenças.

    De um lado temos o principezinho que deixa a sua casa (asteróide), na qual cuida de uma rosa frágil, que necessita de seus cuidados para continuar a viver. A flor aqui se revela como símbolo de fragilidade. De outro lado Tistu não está preocupado em não ferir quem o cerca, mas sim em mudar o mundo, fazendo vingar flores e plantas de qualquer substrato que se lhe apresente. Pois qualquer coisa carrega em si sementes de flores. Aqui, portanto, as flores não significam o frágil, mas sim a força e o vigor de quem é capaz de mudar tudo. As flores aqui mais contestam do que testemunham as coisas do mundo.

    Acho que como toda boa história, ambos nos levam a confrontar a morte. Mas o que nos diz um e outro sobre este mesmo tema. O principezinho morre, pois se entrega a picada de uma serpente que é capaz de lhe levar de novo a sua casa. Onde encontrará a rosa que ele deixou, e a quem ama. Já Tistu constrói uma escada que o leva ao céu. Para um a morte é um remédio, que nos leva a origem. Para outro, como nos diz Ginástico, a morte é o único mal contra o qual as flores nada podem.

    O que nos leva o concluir de certa forma que ambos são diametralmente opostos. E neste caso, complementares. Um é o que poderíamos rotular como um livro de sabedoria. O outro como um livro de esperança (ilusão). Ambos infinitamente belos.

domingo, 29 de novembro de 2009

23/11/09



começo a viagem

com eles chegando ao caminho das pedras

interdito

ele afável

ela em seu jeito

natural

eles sabem onde vão

eu sei

e por isto

mesmo alhures

testifico

faço um primeiro pesponto

espargindo

um pouco da solução

volátil sobre a pele dela

um pouco fica, algo se libera do extrato

que opera

suave

sobre as superfícies despertas

faço o segundo pesponto

e vejo a tela de nuvens negras

abrir-se em franja ao poente de depois da chuva

feita de um amarelo brancacento

que pensa o branco em mim

assim como quem diz

é só isto

em tudo e por fim

faço então o último pesponto

apanho estas três coisas

e ponho-as em tuas mãos

te beijo

arrumo a cama

e como bem pouco sei de tudo

e pouco resta

durmo


segunda-feira, 9 de novembro de 2009


nesga de sentido

desmesurado

a boca se abre

abstêmia do que não pode ser medido

num desfastio de si

prova

o que quer que deva ser refletido

pensa

e dentre os dentes nasce

todo nome

que por fim

terá de ser esquecido



quinta-feira, 29 de outubro de 2009

o poeta do castelo - joaquim pedro - manuel bandeira



http://www.youtube.com/watch?v=acWHzVBs394


caetanos

http://www.youtube.com/watch?v=Gz8UZZ-r-q0





http://www.youtube.com/watch?v=Ur4KW83CviQ






http://www.youtube.com/watch?v=9YgDmt1FoT0








http://www.youtube.com/watch?v=ZaxDlDbMppE





http://www.youtube.com/watch?v=btn7E8yYvaM






http://www.youtube.com/watch?v=Ik0U1PIMxTk




terça-feira, 27 de outubro de 2009

de legião estrangeira de clarice



Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela segurasse no colo o filho. E dissesse: cure meu filho. Eu diria como é que se faz? Ela responderia: cure meu filho. Eu diria: também não sei. Ela responderia: cure meu filho. Então – então porque não sei fazer nada e porque não me lembro de nada e porque é de noite – então estendo a mão e salvo a criança. Porque é de noite, porque estou sozinha na noite de outra pessoa, porque este silêncio é muito grande para mim, porque tenho duas mãos para sacrificar a melhor delas e porque não tenho escolha.



terça-feira, 20 de outubro de 2009

Clarice

http://www.youtube.com/watch?v=9ad7b6kqyok





http://www.youtube.com/watch?v=TvLrJMGlnF4





http://www.youtube.com/watch?v=ZVwj3pHAi_s





http://www.youtube.com/watch?v=ptCJzf20rbY





http://www.youtube.com/watch?v=TbZriv5THpA


terça-feira, 4 de agosto de 2009

considerações ligeiras sobre o tempo e a palavra




hoje estive na palavraria
e dei de olhos na marília de dirceu
do gonzaga
me enterneci com a pequenez
da edição de bolso, compacta, da L&PM
abri o livro
e de um sopetão acabei por ler as 9 primeiras liras

novamente me enterneci
vendo gonzaga a demonstrar a marília que o amor é natural
e que tudo na natureza ama
portanto ela não poderia ir contra a natureza
devendo se entregar ao amor
ouçam contudo como o diz a ela

"Em torno das castas pombas,
Não rulam ternos pombinhos?
E rulam, Marília, em vão?
Não se afagam com os biquinhos?
E a provas de mais ternura
Não os arrasta a paixão?
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção? "

Como não amar estas singelas palavras
que cantam a necessidade de um amor feito também em nossos sentidos
mas sem a necessidade de se dar à derrama
mas todo entregue à sugestão

outra pequena lição
vem destes versos da lira II:

"Na sua face mimosa,
Marília, estão misturadas
Purpúreas folhas de rosa,
Brancas folhas de jasmim.
Dos rubins mais preciosos
Os seus beiços são formados;
Os seus dentes delicados
São pedaços de marfim."

ou nestes da lira IX:

"As abelhas, nas asas suspendidas,
Tiram, Marília, os sucos saborosos
Das orvalhadas flores:
Pendentes dos teus beiços graciosos
Ambrósias chupam, chupam mil feitiços
Nunca fartos Amores."


me restou a questão
quem faria hoje versos a sua amada?
depois; quem cantaria os beiços de sua amada,
sem se entregar a ironia tão pós tudo que vivemos?
por último; o que é o nosso ouvido, o nosso gosto,
ele é realmente nosso
ou tão somente filho da contextura que nos sitia?






trevo de 4 folhas

http://www.youtube.com/watch?v=gypZgHnWRM0



odeon

http://www.youtube.com/watch?v=i6UPYdiuDTc


quarta-feira, 8 de julho de 2009


ontem fui ao cinema, fui ver um bom filme

chorei bastante

muitas lágrimas pela dor de alguém

que sequer existe

alguém triste muito triste

mas que diabo é isso então?

se as lágrimas choram o que não é verdade

de que servem?

senão para umedecer a conjuntiva

e se esquecer de quem se é



o pai tinha uma pedra na mão

o filho nada sabia do pai

agora o pai estava morto

bem morto

esperando ser juntado do chão

e levado

para o esquife

juntado do chão e resgatado

da sua mudez pela mudez da pedra

que tudo

e bem mais que tudo

disse.


domingo, 5 de julho de 2009

o sarau - desculpe a interpretação


http://www.youtube.com/watch?v=LEPQYKQlJTE




http://www.youtube.com/watch?v=F4_6OGESDCg




http://www.youtube.com/watch?v=a4eLIsitLBE

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Canção da Felicidade : ideal de um parisiense - um tantinho de Anto


Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera em minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.


Morar, mui simples, nalguma casa
Toda caiada, defronte o Mar;
No lume, ao menos, ter uma brasa
E uma sardinha pra nela assar...


Não ter fortuna, não ter dinheiro,
Papéis no Banco, nada a render:
Guardar, podendo, num mealheiro
Economias pró que vier.


Ir pelas tardes, até a fonte
Ver as pequenas a encher e a rir,
E ver entre elas o Zé da Ponte
Um pouco torto, quase a cair.


Não ter quimeras, não ter cuidados
E contentar-se com o que é seu,
Não ter torturas, não ter pecados
Que, em se morrendo, vai-se pro Céu!


Não ter talento; suficiente
Para na vida saber andar,
E quanto a estudos saber somente
(Mas ai somente!) ler e contar.


Mulher e filhos! A Mulherzinha
Tão loira e alegre, Jesus! Jesus!
E, nove meses, vê-la choquinha
Como uma pomba, dar outra à luz.


Oh! grande vida, valha a verdade!
Oh! grande vida, mas que ilusão!
Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!


Paris, 1892