do tratado da reforma da inteligência

"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."

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segunda-feira, 7 de outubro de 2013



Fernando Pessoa - Poesia completa de Alberto Caeiro


Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012





sou tudo que sinto enquanto me faltas
e é quando sonegas tua voz que te conheço
à sombra do medo durmo sossegada
na parecença do breu construo pássaros de papel
com suas asas imóveis e olhar gradeado
nas noites quietas, mais é abundante o orvalho
a respiração de nuvens brancas
pede água a plenos pulmões

porque desfrutei de um solo fértil
jamais me perdoarei o fracasso em cultivá-lo
no tempo ávido que devora com mandíbulas cínicas
sou minha própria plateia
lá fora, cães ferozes rosnam por liberdade
mesmo com todo o seu perigo
será que vou encarar minha morte
sem jamais ter sentido que vivi?
quantas mortes a cada escolha evitada,
em cada pensamento natimorto

há um quanto de verdade que se consegue suportar
já que a visão da descoberta
pode trazer à tona a vontade de arrancar os próprios olhos

quero ser condenada a escapar da vida perigosamente segura
abrir à porta uma pequena fresta

não me desvencilhei daquela primeira pele
e ainda assim, permaneço predadora
minha autoconsciência vem tarifada pelo desespero
e a inocência me matou de fome

se me afasto do conforto do rebanho
não estou fadada a uma vida vigilante
tal qual aquela de um mentiroso?

falo comigo não muito alto
temendo escutar tudo que digo
acumulo mentiras em uma poça estagnada
que evapora ao sol do meio-dia


(de BREU RENDADO)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

    Não posso deixar de citar, aqui, o poema de Carlos Pena Filho:
    Soneto do Desmantelo Azul
    Então, pintei de azul os meus sapatos 
    por não poder de azul pintar as ruas, 
    depois, vesti meus gestos insensatos 
    e colori, as minhas mãos e as tuas. 
    Para extinguir em nós o azul ausente 
    e aprisionar no azul as coisas gratas, 
    enfim, nós derramamos simplesmente 
    azul sobre os vestidos e as gravatas. 
    E afogados em nós, nem nos lembramos 
    que no excesso que havia em nosso espaço 
    pudesse haver de azul  também cansaço. 
    E perdidos de azul nos contemplamos 
    e vimos que entre nós nascia um sul 
    vertiginosamente azul. Azul.   
                                                          

segunda-feira, 3 de setembro de 2012


Está aí o prefácio do meu terceiro livro de poesias, BREU RENDADO, por Ronald Augusto:

A leitura noturna de Breu rendado:

Borges escreve em algum lugar, a propósito do jogo entre o fortuito e o forçoso, que quando alguma coisa acontece apenas uma vez estamos frente ao acaso; se acontece pela segunda vez pode ser que indique uma coincidência feliz ou não. Por outro lado, se o evento ocorre uma terceira vez trata-se já de uma confirmação.

Pois bem, o leitor está prestes a mergulhar entre as capas do terceiro livro de poemas de Deisi Beier intitulado Breu rendado. Deisi daria a entender com essa metáfora sua apetência por uma linguagem mais fechada ou rente a uma obscuridade virtuosa, espécie de corolário da razão poética? Não precisamos tentar responder à questão, inclusive porque seria limitador do estranho prazer proporcionado por tal poesia. Mas voltemos à ilusão de Borges. 

De acordo com a imagem triádica do escritor argentino poderíamos, por outro lado, indagar: com que espécie de confirmação, em fim de contas, nos deparamos lendo Breu rendado? A pergunta não pretende projetar conclusões a respeito. Ao mesmo tempo é bastante possível constatar, por meio de uma precisa reiteração, essa confirmação borgeana calcada no número três, para tanto, basta lembrar os títulos das duas primeiras obras da poeta, a saber, Tramas de orvalho (2007) e Córrego de amarras (2010). Dentro desta sequência coincidente onde prevalecem na materialidade verbal (“trama”, “amarra”) equivalências e desdobramentos lexicais evocativos de fio, rede ou liame, bem como projeções semânticas ligadas ao entrecho, à prisão e à doença (uma das acepções para “trama”), mas em sentido de pathos: as paixões da alma – e não seria demais lembrar ainda a tela com que Penélope ludibria seus pretendentes, desfazendo à noite a urdidura feita por ela à luz do dia –; muito bem, além disso, temos, agora, Breu rendado, que, por sua vez, enreda (arremata?) numa coesão de forma e fundo esse novo discurso, esse novo objeto verbal ofertado ao leitor.

Estamos, portanto, no centro de uma tensão entre o fechado e o aberto. Breu rendado supõe uma relativa obscuridade conquistada e estruturada sobre escolhas expressivas. O difícil (“breu”) em poesia não pretende cancelar a participação do leitor, o difícil está no poema (a rede, a trama, a renda) como um convite à colaboração e à sugestão. Deisi faz a si mesma essa pergunta subjacente ao trabalho compositivo de qualquer poema: como dizer o que vejo tão claro? Mas, paradoxalmente, o resultado o mais das vezes – como de resto acontece com todos os poetas na busca da melhor expressão – é o da opacidade ou, melhor, de uma fungibilidade do significado ante a complexa beleza do escrito. Aquilo que o poema tenta figurar e que, a princípio, o justificaria enquanto forma estética acaba por escapar da vista do seu criador. Mas é aqui que o leitor se torna decisivo, pois ele reinventa o poema; o significado não está mais no poema (aliás, nunca esteve), mas no leitor. Na superfície têxtil dos poemas de Deisi Beier o leitor deve estar disposto a apalpar, aqui, um “bloco de nudez e escuridão”, ali, vestir “as trevas guardadas nas roupas” e, mais além, aceitar que as palavras vazem de seu vazio. Palavras, férreas como o silêncio do escorpião.  

Na verdade, temos aqui o fotograma/extrato de um percurso textual em movimento e que não capitula ao cumulativo; não é livro que se publica como meio para fazer “carreira nas letras” como se verifica facilmente num rápido olhar ao panorama da produção literária recente. Breu rendado trata-se de um autorretrato fugidio, esboçado a partir do desejo de linguagem da autora e de uma deriva semântica (razão do poema) que se desdobra em interpretações pertinentes ao leitor; uma questão imprecisa que a poeta se coloca a si mesma e a metáfora da solução é essa interrogação permanente eventualmente constelada em uma forma inscrita na página. 

Deisi Beier “ataca o lado oposto do verbo” na tentativa de renomear a experiência. A poesia, através de sua vertigem, ao repropor os mundos interno e externo com “insana simetria” alcança uma “lucidez acumulada que mata aos poucos” o verismo do representado. Os versos de Breu rendado, como acontece com a tradição que se segue ao modernismo, tematizam na surdina os limites do discurso poético, o divórcio entre as palavras e os objetos que elas designam e a quase impossibilidade de precisar o impreciso. 

A poética do bosque, do labirinto circular, metáfora desse sistema de signos onde o leitor-fruidor é protagonista e vítima, onde decide perder-se de modo que sua aparente derrota se converta em êxito, se encontra embutida no ritmo do verso de Deisi Beier, vejamos, por exemplo, este trecho: “na poesia/ toda armadilha atrai/ leitura noturna em prata tramada”.  Notar a palavra rama dispersa anagramaticamente na sequência desses versos: 

...todA ARMAdilhA AtRAi
leituRA notuRnA eM pRAtA tRAMAdA

         Mas não é o apenas o leitor que tem a chance de perder o senso no espaço ambíguo do poema, a poeta também se candidata a abandonar o terreno da sua identidade e diz: “onde não estou/ precisamente ali começa minha/ escrita”. 

Em seu mais recente gesto de linguagem – a confirmação como um terceiro movimento –, Deisi Beier nos apresenta, através de sua imagética verbal, algo que, na falta de melhor definição, poderia ser nomeado como uma tópica do medo que vai repercutir em toda uma imagética da culpa, da falta e, portanto, da punição. Entretanto, mais do que com um “congresso internacional”, o leitor se confronta com o “escuro recesso” do medo (de onde, segundo Bandeira, “as fontes da vida” só fazem “sangrar inúteis por duas feridas”), já que, ao contrário de Drummond, a poeta circunscreve essa tópica num lugar aquém/além do social e do ideológico. O medo parece estar mais ligado à corporeidade do que ao espírito e à moralidade. Cumpre observar que os poemas abordam essa tópica tanto pelo lado da resignação, quanto pela vertente da recusa. 

Em muitos poemas de Breu rendado notamos palavras, sintagmas e versos que, por assim dizer, formam esse “conteúdo inessencial”, subsidiário, mas não irrelevante, a atravessar o conjunto. Eis aqui um breve levantamento: “temendo escutar tudo que digo”; “as costas vincadas do arrependimento”; “o embaraço da língua/ acovardada”; “a história e seus remorsos”; “o breu rendado de minhas culpas” (de onde sai o título do livro); “antecipando a expiação”; “os males secretos dormem de dia”; “cumpro a tarefa de salvar pela tentação”; “nascer foi um tanto de erros a corrigir”; “uma fome de lamparinas medrosas”; “meu medo ultrapassa as paredes”. Sobram exemplos. Evidentemente, Breu rendado não esgota aí a sua trama de significações. Essa particularidade temática forma um ruído de sentido integrado ao seu movimento de linguagem. Uma vereda a ser explorada pelo leitor interessado.

Na tolerância com a pressa e a comunicabilidade pop, exigidas pela realidade contemporânea, somos forçados a catalogar cada palavra na faixa mais estreita de seu significado. Felizmente, a contrapelo deste estado de coisas, há a experiência da poesia que leva a cabo a divisa carrolliana segundo a qual, no que toca a esta linguagem “a questão é fazer com que as palavras signifiquem tantas coisas diferentes”. Deisi Beier dá conta disso com sucesso em seu Breu rendado. 

Ao mesmo tempo a poeta sabe que a poesia é uma forma de discurso que se situa de maneira ambivalente entre a vida ativa e a vida contemplativa. Todo poeta participa da vida radicalmente, isto é, por meio da linguagem almeja um mergulho cultural, social, existencial, político e estético. A vocação transgressiva e equívoca desse discurso – discurso que a um só tempo vivifica e mata a vida –, pela simples diferença com relação às demais formas de expressão verbal, exige essa participação desmedida tanto nos destinos do homem como nos destinos da poesia.

Finalmente, outras explorações a propósito da poética de Deisi Beier poderiam ser adiantadas de minha parte ao leitor, mas em respeito à sua liberdade de interpretação e ao espaço que se deve dispor em um prefácio para dizer algo sobre o livro que seja mais do que protocolar elogio, interrompo por aqui meus comentários com a convicção de que esse mesmo leitor cumprirá sua parte nesse jogo estético, ainda que temendo escutar tudo o que quer dizer lateralmente Deisi Beier com sua desafiadora poesia. Breu rendado agora lhe pertence. E os sentidos que venha ou não a alcançar serão irredutíveis à sua pessoa e ao seu repertório.

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Está aí a capa do meu terceiro livro de poesias, BREU RENDADO, pela Editora Movimento, lançado dia 31/8/2012, sexta-feira, na Palavraria Livraria e Café, em Porto Alegre. Nova postagem incluirá o prefácio, de Ronald Augusto.

quarta-feira, 20 de abril de 2011





Quem tiver a oportunidade de fuçar nas estantes das livrarias, detenha-se nos poemas de Luis Dolhnikoff, em seu livro LODO, publicado pela Ateliê Editorial, 2009. Trago um deles, para atiçar a curiosidade dos leitores:



Réquiem para um cão morto




não choro mais a morte do meu cão
agora transformada em decassílabo




mas não por ter-se transformado em ritmo
que oscila entre o heroico e o imperfeito
como ele próprio entre o imperfeito e o heroico



porém porque sua perda é uma presença
mais fiel, mais companheira que os cães



(que jamais abandona o novo dono
sombra da sombra que jaz a seus pés




mas cujo corpo, morto, habita a alma
como um corpo estranho entranhando um corpo
aviva a carne morta em carne viva)




e porque sua perda é uma tal presença
não há mais por que chorar essa perda



(porque chorar é para encher de lágrimas
o vazio que as lágrimas esvaziam
ao transbordar-se do vazio do olhar)



terça-feira, 15 de março de 2011

Depois do Carnaval, enfim inicia-se o ano, com tudo que lhe é próprio. Então, aí vai o primeiro poema de março e suas águas:


não sobrara pedra sobre pedra
do que acostumou denominar seu castelo
cravado que era na planície dos sentidos
ao pé dos ímpios montes de ressalvas




nesse espaço entre um vinco e outro de tempo
saudades feito maresias
que tomam de assalto as crinas desavisadas
e criam redemoinhos



heras teimosas cobrem os escombros
e sequer permitem esquecer

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

a hora de começar de novo

a última hora
sem música
direta
a mais ardida


a navalha em busca do que se manteve reservado
os limites muito além dos pés no chão


lágrimas


até não poder mais agarrar as páginas líquidas



sexta-feira, 26 de novembro de 2010



Dia desses me deparei na Feira do Livro com uma publicação da L&PM, um livro de crônicas do nosso poeta Affonso Romano de Sant'Anna, Tempo de delicadeza, em que trata, delicadamente, de temas corriqueiros da vida com o olhar único de poeta. Trouxe pra casa e tenho desfrutado com prazer dos textos que ali encontrei. Dentre eles, o que traz o nome do livro e crônica de abertura, Tempo de delicadeza, fala da necessidade de sermos urgentemente delicados, diante da violência, da velocidade, da rudeza que vem tomando conta do nosso cotidiano. O poeta cita, segundo suas próprias palavras, "nosso sedutor e exemplar Vinícius, que há vinte anos nos deixou, delicadamente", que era um profissional da delicadeza e que, na sua Elegia ao primeiro amigo, disse:



mato com delicadeza. faço chorar delicadamente
e me deleito. inventei o carinho dos pés; minha alma
áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre
um corpo de adúltera.
na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com
todas delicado e atento.
se me entediam, abandono-as delicadamente,
despreendendo-me delas com uma doçura de água.
se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
desprende esse fluido que as envolve de maneira
irremissível
sou um meigo energúmeno. até hoje só bati numa
mulher
mas com singular delicadeza. não sou bom
nem mau: sou delicado. preciso ser delicado
porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
como um lobo.


 
Encontrei nesse poema uma verdade singular, traduzida por Affonso com maestria: porque somos ferozes precisamos ser delicados. E que sejamos, então, delicados. Se necessário for, cruelmente delicados.
 
 
 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010



escada pede um lugar de morar
marcenaria alinhada
madeira aparente
peroba-do-campo e descanso às lembranças



o sobrado tinha



refúgio não garante proteção



sábado, 23 de outubro de 2010

guardo muitas noites
e seus pesadelos atrasados
vários retratos nunca tirados
de dentro de meu quarto
e a chuva esquecida de outonos
que brota da boca
e sopra palavras
versos afora



nos olhos, a cor repete gestos obscenos
vigiando as manhãs mal dormidas
as horas jamais antecipadas
não escritas nos papéis
onde constara meu nome
onde não corria qualquer pedaço de rio
e a água estagnada
cheirava a morte



quinta-feira, 14 de outubro de 2010


beijo onde não queres beijo


a ferida aberta a fórceps


a decência escancarada


tua alma teu trauma


tua entranha


beijo





segunda-feira, 4 de outubro de 2010



Aí vai mais um poema do novo livro, Córrego de amarras:




olhos
dois lagos que piscam
concisão do azul indeciso
violinos silvestres
saturados de substância
empalidecem lilazes




lívidos lírios




cair-se de amor de suma altura
e aprender a nascer velho a cada dia
a tecer invenção
a calar iniquidades
na insanidade que é ter
garça distraída
além do limite do isento
livre como ser ninguém




caminho por escrito
nessa caligrafia coreografada
em casa larga
boca-traço sem nome
o prumo do riso
de um dizer sempre oblíquo

quarta-feira, 22 de setembro de 2010


De hoje em diante, caminho sozinha. A incompetência das pernas ainda parece maior do que a vontade de prosseguir, sem parceria, nessa empreitada, mas quero muito tentar. Confesso que a contribuição do Jaime fará muita falta, já que ele é quem vinha tocando quase tudo sozinho por aqui. Seguirei no mesmo rumo, entretanto. A cara do blog já mudou, mas só um pouco e, não estranhem se isso se tornar habitual, pois adoro mudanças. Faz parte de minha essência geminiana. Para conhecimento de todos, acabo de lançar meu segundo livro, pela editora Movimento, chamado Córrego de Amarras, lançamento esse que se deu no dia 10 de setembro passado, na livraria Palavraria, noite muito feliz para mim. Então, aí vai postagem com um dos poemas que constam do livro:




na sua voz, o que há de intratável

no gesto do corpo apanhado em ação e imobilizado

o curto fôlego das figuras

as palavras, nunca loucas, estão, no máximo, perversas

e, nas mais suaves, o sobressalto de um suspense



engendro monstros para não subestimar o poder do acaso

dissolvido, não sou recolhido em parte alguma

no ruído de um rasgão

o horror do estrago ainda mais forte do que a angústia da perda

plantado no lugar, sofro feito um pacote num canto esquecido da estação

falo pelo buraco na fechadura da linguagem

colho fungos na raiz do poema sequer dito

e minhas verdades não posso ler em qualquer recanto do corpo adverso

digo meu plural onde me ofereço em carinhos

mesmo quando nada tenho a dizer

ainda assim é a ti que digo nada

e te amo como se deve amar, em desespero, asfixiado de dor

num relâmpago frio

sequer o belo véu do silêncio

pode chorar todas as lágrimas do meu corpo



peço à pele que responda ao meu afeto

como se tivesse dedos na ponta de minhas palavras

cultivo esse roçar na escrita seca e obtusa

totalidade indelicada



o que me sufoca

inquietação que desgasta o ser

e no entanto não mata

porque não se morre de dor



escalpelado, sou poeta apenas quanto ao começo

faço luto à minha própria sinceridade

o corpo arrebenta em dizer quando calo minha voz

e escureço minha própria vista para não ser visto

domingo, 25 de abril de 2010

Ser – um tantinho de Carlos Drummond de Andrade



 

O filho que não fiz

hoje seria homem.

Ele corre na brisa,

sem carne, sem nome.


 

Às vezes o encontro

num encontro de nuvem.

Apóia em meu ombro

Seu ombro nenhum.


 

Interrogo meu filho,

objeto de ar:

em que gruta ou concha

quedas abstrato?


 

Lá onde eu jazia,

responde-me o hálito

não me percebeste,

contudo chamava-te


 

como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo

aspira a criar-se.


 

O filho que não fiz

faz-se por si mesmo.

terça-feira, 30 de março de 2010



do abismo da desordem
como a água que é outra a cada instante
assim trago os sentimentos
tenho somente meia razão
e está tudo tão quieto que
mesmo o morto ao lado quebraria
se o tédio faz parte de uma vida
de sentimentos honestos
os homens de boa-vontade
têm um ar magoado
um silêncio de multidão
e a necessidade de poder contar a sua história
porque estar também é dar
e o corpo guarda a solidão do espírito
no impasse do si mesmo
uma solidão árida e grande
a derrocada de um mundo
vista da pequena altura de gente

os males secretos dormem de dia
como baratas invisíveis
que sobem pelos ralos
enquanto a gente sonha

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

amigos de viagem


Comecei a tomar contato com Peter, Paul and Mary nos meados dos 80. Primeiro nas conversas com meu amigo Ivaldo Araujo, depois num LP lançado pela Band, onde ouvi pela primeira vez com consciência, pois Peter , Paul and Mary (PP&M) certamente fazem parte do inconsciente de quem nasceu na década de 60. Mais adiante, final dos 80 ou início dos noventa encontrei o LP Ten Years Together. Disco com vários dos seus hits (500 miles, blowin' in the Wind, if I had a hammer, lemon tree, early morning rain, Puff the magic dragon, leaving on jet plane). Comprei, um pra mim, outro pro meu amigo. Escutei muito àquele LP, me encantava o que nele considerava simples, despojado e acolhedor.
Nos tempos do planos econômicos que grassaram pelo país, houve momentos em que se tornou viável a compra do cd importado, quando adquiri vários de PP&M. Também tive o vídeo cassete do show Life Lines Live, onde convidam amigos, um deles Odetta, que canta House of rising Sun, uma maravilha, descoberta inesquecível.
Por que tanto PP&M por aqui agora ? Mary Travers morreu dia 9 de setembro de 2009 aos 72 anos. O que me obrigou a numa pequena tentativa de homenagem, compartilhar o que estes três companheiros de viagem me proporcionaram nestes últimos 20 anos.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010



sangra o desejo

na pele desenhada pela vergasta

esfaimada carne

a difamar votos e promessas



nessa saudade congênita

a dor da espera

e o vôo de tordos ao cair da tarde

não recupera a respiração cortada

não há remédio, nem veneno

só e sempre a mancha escura

a cobrir o peito

a sucumbir inteiro

o pulso

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Uma pequena contribuição ao lirismo contemporâneo

 
   Ontem terminei de ler O Menino do Dedo Verde, havia escutado muitas pessoas elogiar o livro. É indiscutivelmente um belo livro. Também havia escutado muitas vezes repetirem uma comparação com O Pequeno Príncipe, no Brasil acho que ainda mais reforçada; pois D. Marcos Barbosa fez a tradução de ambos. Ambos falam de um menino. De sua descoberta do mundo. E de flores. Ambos são profundamente metafóricos. Mas me parece que devemos aprofundar um pouco mais a nossa comparação. Descobrindo não somente semelhanças, mas também suas diferenças.

    De um lado temos o principezinho que deixa a sua casa (asteróide), na qual cuida de uma rosa frágil, que necessita de seus cuidados para continuar a viver. A flor aqui se revela como símbolo de fragilidade. De outro lado Tistu não está preocupado em não ferir quem o cerca, mas sim em mudar o mundo, fazendo vingar flores e plantas de qualquer substrato que se lhe apresente. Pois qualquer coisa carrega em si sementes de flores. Aqui, portanto, as flores não significam o frágil, mas sim a força e o vigor de quem é capaz de mudar tudo. As flores aqui mais contestam do que testemunham as coisas do mundo.

    Acho que como toda boa história, ambos nos levam a confrontar a morte. Mas o que nos diz um e outro sobre este mesmo tema. O principezinho morre, pois se entrega a picada de uma serpente que é capaz de lhe levar de novo a sua casa. Onde encontrará a rosa que ele deixou, e a quem ama. Já Tistu constrói uma escada que o leva ao céu. Para um a morte é um remédio, que nos leva a origem. Para outro, como nos diz Ginástico, a morte é o único mal contra o qual as flores nada podem.

    O que nos leva o concluir de certa forma que ambos são diametralmente opostos. E neste caso, complementares. Um é o que poderíamos rotular como um livro de sabedoria. O outro como um livro de esperança (ilusão). Ambos infinitamente belos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009



Andei lendo um tanto e muito de Clarice Lispector, e não me canso de achar que ela sabia das coisas e continua sempre atual. Aí vai um pouquinho do quanto ela soube ser genial:

"Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa."