do tratado da reforma da inteligência

"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."

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segunda-feira, 7 de outubro de 2013



Fernando Pessoa - Poesia completa de Alberto Caeiro


Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013




"PÊSSEGOS


Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em
orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus."


Manoel de Barros, Poemas rupestres. 


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A INVISÍVEL CICATRIZ de Ruy Proença


nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz

viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto


mas nem tudo
são cicatrizes

algumas incisões
definitivamente
não se fecham

por isso
aliás
morremos

segunda-feira, 3 de setembro de 2012


Está aí o prefácio do meu terceiro livro de poesias, BREU RENDADO, por Ronald Augusto:

A leitura noturna de Breu rendado:

Borges escreve em algum lugar, a propósito do jogo entre o fortuito e o forçoso, que quando alguma coisa acontece apenas uma vez estamos frente ao acaso; se acontece pela segunda vez pode ser que indique uma coincidência feliz ou não. Por outro lado, se o evento ocorre uma terceira vez trata-se já de uma confirmação.

Pois bem, o leitor está prestes a mergulhar entre as capas do terceiro livro de poemas de Deisi Beier intitulado Breu rendado. Deisi daria a entender com essa metáfora sua apetência por uma linguagem mais fechada ou rente a uma obscuridade virtuosa, espécie de corolário da razão poética? Não precisamos tentar responder à questão, inclusive porque seria limitador do estranho prazer proporcionado por tal poesia. Mas voltemos à ilusão de Borges. 

De acordo com a imagem triádica do escritor argentino poderíamos, por outro lado, indagar: com que espécie de confirmação, em fim de contas, nos deparamos lendo Breu rendado? A pergunta não pretende projetar conclusões a respeito. Ao mesmo tempo é bastante possível constatar, por meio de uma precisa reiteração, essa confirmação borgeana calcada no número três, para tanto, basta lembrar os títulos das duas primeiras obras da poeta, a saber, Tramas de orvalho (2007) e Córrego de amarras (2010). Dentro desta sequência coincidente onde prevalecem na materialidade verbal (“trama”, “amarra”) equivalências e desdobramentos lexicais evocativos de fio, rede ou liame, bem como projeções semânticas ligadas ao entrecho, à prisão e à doença (uma das acepções para “trama”), mas em sentido de pathos: as paixões da alma – e não seria demais lembrar ainda a tela com que Penélope ludibria seus pretendentes, desfazendo à noite a urdidura feita por ela à luz do dia –; muito bem, além disso, temos, agora, Breu rendado, que, por sua vez, enreda (arremata?) numa coesão de forma e fundo esse novo discurso, esse novo objeto verbal ofertado ao leitor.

Estamos, portanto, no centro de uma tensão entre o fechado e o aberto. Breu rendado supõe uma relativa obscuridade conquistada e estruturada sobre escolhas expressivas. O difícil (“breu”) em poesia não pretende cancelar a participação do leitor, o difícil está no poema (a rede, a trama, a renda) como um convite à colaboração e à sugestão. Deisi faz a si mesma essa pergunta subjacente ao trabalho compositivo de qualquer poema: como dizer o que vejo tão claro? Mas, paradoxalmente, o resultado o mais das vezes – como de resto acontece com todos os poetas na busca da melhor expressão – é o da opacidade ou, melhor, de uma fungibilidade do significado ante a complexa beleza do escrito. Aquilo que o poema tenta figurar e que, a princípio, o justificaria enquanto forma estética acaba por escapar da vista do seu criador. Mas é aqui que o leitor se torna decisivo, pois ele reinventa o poema; o significado não está mais no poema (aliás, nunca esteve), mas no leitor. Na superfície têxtil dos poemas de Deisi Beier o leitor deve estar disposto a apalpar, aqui, um “bloco de nudez e escuridão”, ali, vestir “as trevas guardadas nas roupas” e, mais além, aceitar que as palavras vazem de seu vazio. Palavras, férreas como o silêncio do escorpião.  

Na verdade, temos aqui o fotograma/extrato de um percurso textual em movimento e que não capitula ao cumulativo; não é livro que se publica como meio para fazer “carreira nas letras” como se verifica facilmente num rápido olhar ao panorama da produção literária recente. Breu rendado trata-se de um autorretrato fugidio, esboçado a partir do desejo de linguagem da autora e de uma deriva semântica (razão do poema) que se desdobra em interpretações pertinentes ao leitor; uma questão imprecisa que a poeta se coloca a si mesma e a metáfora da solução é essa interrogação permanente eventualmente constelada em uma forma inscrita na página. 

Deisi Beier “ataca o lado oposto do verbo” na tentativa de renomear a experiência. A poesia, através de sua vertigem, ao repropor os mundos interno e externo com “insana simetria” alcança uma “lucidez acumulada que mata aos poucos” o verismo do representado. Os versos de Breu rendado, como acontece com a tradição que se segue ao modernismo, tematizam na surdina os limites do discurso poético, o divórcio entre as palavras e os objetos que elas designam e a quase impossibilidade de precisar o impreciso. 

A poética do bosque, do labirinto circular, metáfora desse sistema de signos onde o leitor-fruidor é protagonista e vítima, onde decide perder-se de modo que sua aparente derrota se converta em êxito, se encontra embutida no ritmo do verso de Deisi Beier, vejamos, por exemplo, este trecho: “na poesia/ toda armadilha atrai/ leitura noturna em prata tramada”.  Notar a palavra rama dispersa anagramaticamente na sequência desses versos: 

...todA ARMAdilhA AtRAi
leituRA notuRnA eM pRAtA tRAMAdA

         Mas não é o apenas o leitor que tem a chance de perder o senso no espaço ambíguo do poema, a poeta também se candidata a abandonar o terreno da sua identidade e diz: “onde não estou/ precisamente ali começa minha/ escrita”. 

Em seu mais recente gesto de linguagem – a confirmação como um terceiro movimento –, Deisi Beier nos apresenta, através de sua imagética verbal, algo que, na falta de melhor definição, poderia ser nomeado como uma tópica do medo que vai repercutir em toda uma imagética da culpa, da falta e, portanto, da punição. Entretanto, mais do que com um “congresso internacional”, o leitor se confronta com o “escuro recesso” do medo (de onde, segundo Bandeira, “as fontes da vida” só fazem “sangrar inúteis por duas feridas”), já que, ao contrário de Drummond, a poeta circunscreve essa tópica num lugar aquém/além do social e do ideológico. O medo parece estar mais ligado à corporeidade do que ao espírito e à moralidade. Cumpre observar que os poemas abordam essa tópica tanto pelo lado da resignação, quanto pela vertente da recusa. 

Em muitos poemas de Breu rendado notamos palavras, sintagmas e versos que, por assim dizer, formam esse “conteúdo inessencial”, subsidiário, mas não irrelevante, a atravessar o conjunto. Eis aqui um breve levantamento: “temendo escutar tudo que digo”; “as costas vincadas do arrependimento”; “o embaraço da língua/ acovardada”; “a história e seus remorsos”; “o breu rendado de minhas culpas” (de onde sai o título do livro); “antecipando a expiação”; “os males secretos dormem de dia”; “cumpro a tarefa de salvar pela tentação”; “nascer foi um tanto de erros a corrigir”; “uma fome de lamparinas medrosas”; “meu medo ultrapassa as paredes”. Sobram exemplos. Evidentemente, Breu rendado não esgota aí a sua trama de significações. Essa particularidade temática forma um ruído de sentido integrado ao seu movimento de linguagem. Uma vereda a ser explorada pelo leitor interessado.

Na tolerância com a pressa e a comunicabilidade pop, exigidas pela realidade contemporânea, somos forçados a catalogar cada palavra na faixa mais estreita de seu significado. Felizmente, a contrapelo deste estado de coisas, há a experiência da poesia que leva a cabo a divisa carrolliana segundo a qual, no que toca a esta linguagem “a questão é fazer com que as palavras signifiquem tantas coisas diferentes”. Deisi Beier dá conta disso com sucesso em seu Breu rendado. 

Ao mesmo tempo a poeta sabe que a poesia é uma forma de discurso que se situa de maneira ambivalente entre a vida ativa e a vida contemplativa. Todo poeta participa da vida radicalmente, isto é, por meio da linguagem almeja um mergulho cultural, social, existencial, político e estético. A vocação transgressiva e equívoca desse discurso – discurso que a um só tempo vivifica e mata a vida –, pela simples diferença com relação às demais formas de expressão verbal, exige essa participação desmedida tanto nos destinos do homem como nos destinos da poesia.

Finalmente, outras explorações a propósito da poética de Deisi Beier poderiam ser adiantadas de minha parte ao leitor, mas em respeito à sua liberdade de interpretação e ao espaço que se deve dispor em um prefácio para dizer algo sobre o livro que seja mais do que protocolar elogio, interrompo por aqui meus comentários com a convicção de que esse mesmo leitor cumprirá sua parte nesse jogo estético, ainda que temendo escutar tudo o que quer dizer lateralmente Deisi Beier com sua desafiadora poesia. Breu rendado agora lhe pertence. E os sentidos que venha ou não a alcançar serão irredutíveis à sua pessoa e ao seu repertório.

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terça-feira, 27 de outubro de 2009

de legião estrangeira de clarice



Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela segurasse no colo o filho. E dissesse: cure meu filho. Eu diria como é que se faz? Ela responderia: cure meu filho. Eu diria: também não sei. Ela responderia: cure meu filho. Então – então porque não sei fazer nada e porque não me lembro de nada e porque é de noite – então estendo a mão e salvo a criança. Porque é de noite, porque estou sozinha na noite de outra pessoa, porque este silêncio é muito grande para mim, porque tenho duas mãos para sacrificar a melhor delas e porque não tenho escolha.



quinta-feira, 26 de junho de 2008

Trago aos leitores do blog um trecho da crítica de Ronald Augusto, poeta, músico, letrista e ensaista, ao meu livro Tramas de Orvalho. A íntegra pode ser encontrada no site www.artistasgauchos.com.br, com acesso pelo nome do colunista.

Deisi Beier se sai bem com as diversas soluções metafóricas mobilizadas em seu livro, tanto que por meio delas consegue incorporar a persona da “catadora/ das surpresas”. Perturbações de sentido incrustadas em complexos visuais, e transportados, por sua vez, aos versos, à enunciação de uma fala em simulação de transe. No mesmo poema, de onde saquei a imagem apresentada acima, o vocábulo “mutante” ocupa, em termos icônicos, um espaço significante e indicial no branco da página (pág. 68). Antes, na pág. 56 o poema já lançara “no ar a senha” do livro: uma “profusão de formas”. E formas que falam. E é, portanto, a partir dessas formas em movimento que o poema-livro conquista a “interação entre opostos”. As “águas escuras” e desejosas das seduções tangendo essa lira de sinestesias presentificada nas metamorfoses orgânico-verbais de Tramas de orvalho. Uma estréia que merece leituras interessadas. Excertos de poemas de Tramas de Orvalho:
“o fogo líquido/ passou pela cabeça/ as bolhas de sabão/ se tornaram pérolas/ em cada canto há ostras/ ideogramas de noite” (...); “como o pensamento/ abre espaço para novas delícias” (...), pág. 30. * * *
“ar// luz nas transparências/ translúcidos/ vidro/ solidário/ uma garrafa/ e o azul” (...), pág. 44. * * * (...) “no jardim/ embrulhado para presente/ o brilho// aos convidados/ envelopes vermelhos em movimento” (...), pág. 52 * * *
(...) “úmidos cogumelos crescem nos troncos/ não há cortinas” (...); “morrer: vazio de improvisos”, pág. 66

Mais uma vez, minha alegria pelo trabalho reconhecido.

quarta-feira, 7 de maio de 2008




Não sei se é do conhecimento dos leitores e dos visitantes do blog minha primeira publicação, pela editora Movimento, datada de dezembro de 2007, sob o título "Tramas de Orvalho". Ofereço a todos os versos que, cuidadosamente, ali constam e, a respeito, aí vai a impressão de outro poeta e leitor atento, Aldo Guido Votto, ao receber meu livro:



"Cara poeta,


Acabo de acabar, pela primeira vez, uma leitura do livro que gentilmente me presenteaste.


Caso fosse instigado a eleger um substantivo para sintetizar a poética das tuas "Tramas de Orvalho", muito provavelmente, optaria pelo abstrato 'modéstia'. E logo percebi, que, embora de súbito, teria combinado minhas impressões desta primeira leitura com as três acepções que o velho mestre Aurélio registro para o termo. Senão vejamos:


1. Ausência de vaidade, despretensão, desambição, simplicidade.


Embora não seja possível uma ausência total de vaidade em quem se expõe escrevendo e publicando, a pequena proporção deste sentimento na motivação do teu livro aparece já na capa evidenciada pela opção pelos tons escuros, a imagem em segundo plano sugerida mais que mostrada, e a silhueta das poucas libélulas e suas asas transparentes, como a porção viva do cenário inerte, em vez do esplendor de formas e exuberância de cores das borboletas.


Depois, o próprio título segue afirmando a simplicidade. Para quem já saboreou o poético da cena bucólica e matinal das teias de aranhas, invisíveis nas outras horas do dia, reveladas pelas gotículas do sereno absorvidas pelos fios deixados nos caminhos naturais de possíveis presas, salta o sentido transmutado pela tua autoria em 'tramas de erotismo'. E com quatro versos e oito palavras concedes ao leitor o direito de construir a descrição de uma sedução que se consuma na manhãzinha, inda que esta, eventualmente, não tenha sido tua intenção original, como tantas vezes ocorre com quem escreve.


2. Reserva, pudor, decência, gravidade, compostura.


Assim, me pareceu circunstância toda tua verve, mas em especial, aquela porção dirigida ao encontro de pares, ao amor erótico. Neste tema, embora perceptível a perplexidade prazerosa da vivência pessoal desta pulsão que todas as artes celebram ao longo dos séculos, da 'ânsia da vida por si mesma', toda a declaração é feita através de um cortinado, todo o manifesto é pouco mais que silencioso: o 'tsunâmi' está lá, apontado, mas não descrito.


3. Moderação, sobriedade.


O teu estilo de apontar o poético, sem sobrecarregá-lo de muitas qualificações, virtudes ou defeitos que sejam, de novo, concede o privilégio do acabamento ao leitor e é uma afirmação da moderação e da sobriedade.


Muito de beleza, muitíssimo do poético escondido no dia-a-dia, no detalhe, nos pequenos objetos, nas práticas mais prosaicas, está apontado, sugerido, exposto sem excesso de debrum ou exagero de pesponto, por ti no caderno 'o lugar'. Meu momento inestimável de leitor é a tua apropriação do verbo 'quarar'. A sonoridade e a impossibilidade de qualquer polissemia são um presente modesto, moderado e sóbrio ao leitor-co-autor das tuas 'Tramas...'. Para que tenhas uma idéia da idéia que me veio a respeito desta moderação, segue aí uma paráfrase, num estilo de mesmo sentido, mas direção oposta:



janela verde.


brilho branco.


dormem na relva


o organdi e a alpaca,


a flanela e o brim,


a casimira e o cetim,


a pelúcia e o percal,


a sarja e o fustão,


a cambraia, o algodão,


e o linho,


que relva já não é


e agora quara


para agarrar


o branco brilho


outra vez.



Isto é, possivelmente sobra texto para tentar emitir uma mensagem semelhante...


Bem, cara poeta, se me tivesses pedido uma sugestão para o teu segundo livro, penso que teria algo a ver com estas últimas reflexões. No meu caso espero que já tenhas recebido minha remessa do "Quatro Nomes", pensaria num segundo livro de mesmo sentido, mas direção oposta: mais modéstia e menos vaidade!!! E no teu, desculpa a ousadia, sugeriria exatamente o contrário: menos modéstia e mais exagero!!!


Obrigado pela satisfação em poder compartilhar contigo estes momentos de poesia.


Um grande abraço,


Aldo"



Nem preciso dizer o quanto feliz fico.