do tratado da reforma da inteligência

"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013




Conforme combinado, aí vai a última publicação do ano:




ansiava embrenhar-se num azul ondulante
cega de esperas e sem qualquer definição
afundar o corpo numa calmaria líquida



se falasse, como assunto as essências e as medulas
nos corredores da casa ajustaria os cantos
de modo a não lhe caber tarefa
de afastar os tantos que deles insistem
em se conformar e se fazer lugar



se de mãos pudesse realmente dispor
daria gaiola às pequenas, às lívidas, veludo de toque
e como algoz implacável delas só reteria o canto
mãos presas só precisam de quem as escute dor



e, se por fim, lhe restasse um tanto de ainda paz
de seu comeria os ossos


terça-feira, 6 de novembro de 2012




meu cabimento é inteiro
somente onde não estou
santos não guardam meu adormecer
que é pouco e lento
nessa fome sem nome
não há sabor a atiçar as narinas
e minha língua é viva
quando de tua língua a autoria da cópula
a música que anima o coreto
se faz das mesmas notas que acompanham o cortejo
os fins, enfim, justificam os meios?
cova rasa não garante esquecimento
tem missão abortada
no quarto ao lado, os filhos têm asas cortadas
há uma dor de espera na velocidade das pernas
a porta aberta garante o retorno
apenas do que ainda não se foi
varanda cercada



segunda-feira, 8 de outubro de 2012




Esse é inédito:


manhã azeda não esgarça rãs
cordas da chuva
sob o arco do córrego



segunda-feira, 24 de setembro de 2012





sou tudo que sinto enquanto me faltas
e é quando sonegas tua voz que te conheço
à sombra do medo durmo sossegada
na parecença do breu construo pássaros de papel
com suas asas imóveis e olhar gradeado
nas noites quietas, mais é abundante o orvalho
a respiração de nuvens brancas
pede água a plenos pulmões

porque desfrutei de um solo fértil
jamais me perdoarei o fracasso em cultivá-lo
no tempo ávido que devora com mandíbulas cínicas
sou minha própria plateia
lá fora, cães ferozes rosnam por liberdade
mesmo com todo o seu perigo
será que vou encarar minha morte
sem jamais ter sentido que vivi?
quantas mortes a cada escolha evitada,
em cada pensamento natimorto

há um quanto de verdade que se consegue suportar
já que a visão da descoberta
pode trazer à tona a vontade de arrancar os próprios olhos

quero ser condenada a escapar da vida perigosamente segura
abrir à porta uma pequena fresta

não me desvencilhei daquela primeira pele
e ainda assim, permaneço predadora
minha autoconsciência vem tarifada pelo desespero
e a inocência me matou de fome

se me afasto do conforto do rebanho
não estou fadada a uma vida vigilante
tal qual aquela de um mentiroso?

falo comigo não muito alto
temendo escutar tudo que digo
acumulo mentiras em uma poça estagnada
que evapora ao sol do meio-dia


(de BREU RENDADO)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Está aí a capa do meu terceiro livro de poesias, BREU RENDADO, pela Editora Movimento, lançado dia 31/8/2012, sexta-feira, na Palavraria Livraria e Café, em Porto Alegre. Nova postagem incluirá o prefácio, de Ronald Augusto.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

amigos de viagem


Comecei a tomar contato com Peter, Paul and Mary nos meados dos 80. Primeiro nas conversas com meu amigo Ivaldo Araujo, depois num LP lançado pela Band, onde ouvi pela primeira vez com consciência, pois Peter , Paul and Mary (PP&M) certamente fazem parte do inconsciente de quem nasceu na década de 60. Mais adiante, final dos 80 ou início dos noventa encontrei o LP Ten Years Together. Disco com vários dos seus hits (500 miles, blowin' in the Wind, if I had a hammer, lemon tree, early morning rain, Puff the magic dragon, leaving on jet plane). Comprei, um pra mim, outro pro meu amigo. Escutei muito àquele LP, me encantava o que nele considerava simples, despojado e acolhedor.
Nos tempos do planos econômicos que grassaram pelo país, houve momentos em que se tornou viável a compra do cd importado, quando adquiri vários de PP&M. Também tive o vídeo cassete do show Life Lines Live, onde convidam amigos, um deles Odetta, que canta House of rising Sun, uma maravilha, descoberta inesquecível.
Por que tanto PP&M por aqui agora ? Mary Travers morreu dia 9 de setembro de 2009 aos 72 anos. O que me obrigou a numa pequena tentativa de homenagem, compartilhar o que estes três companheiros de viagem me proporcionaram nestes últimos 20 anos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Uma pequena contribuição ao lirismo contemporâneo

 
   Ontem terminei de ler O Menino do Dedo Verde, havia escutado muitas pessoas elogiar o livro. É indiscutivelmente um belo livro. Também havia escutado muitas vezes repetirem uma comparação com O Pequeno Príncipe, no Brasil acho que ainda mais reforçada; pois D. Marcos Barbosa fez a tradução de ambos. Ambos falam de um menino. De sua descoberta do mundo. E de flores. Ambos são profundamente metafóricos. Mas me parece que devemos aprofundar um pouco mais a nossa comparação. Descobrindo não somente semelhanças, mas também suas diferenças.

    De um lado temos o principezinho que deixa a sua casa (asteróide), na qual cuida de uma rosa frágil, que necessita de seus cuidados para continuar a viver. A flor aqui se revela como símbolo de fragilidade. De outro lado Tistu não está preocupado em não ferir quem o cerca, mas sim em mudar o mundo, fazendo vingar flores e plantas de qualquer substrato que se lhe apresente. Pois qualquer coisa carrega em si sementes de flores. Aqui, portanto, as flores não significam o frágil, mas sim a força e o vigor de quem é capaz de mudar tudo. As flores aqui mais contestam do que testemunham as coisas do mundo.

    Acho que como toda boa história, ambos nos levam a confrontar a morte. Mas o que nos diz um e outro sobre este mesmo tema. O principezinho morre, pois se entrega a picada de uma serpente que é capaz de lhe levar de novo a sua casa. Onde encontrará a rosa que ele deixou, e a quem ama. Já Tistu constrói uma escada que o leva ao céu. Para um a morte é um remédio, que nos leva a origem. Para outro, como nos diz Ginástico, a morte é o único mal contra o qual as flores nada podem.

    O que nos leva o concluir de certa forma que ambos são diametralmente opostos. E neste caso, complementares. Um é o que poderíamos rotular como um livro de sabedoria. O outro como um livro de esperança (ilusão). Ambos infinitamente belos.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

considerações ligeiras sobre o tempo e a palavra




hoje estive na palavraria
e dei de olhos na marília de dirceu
do gonzaga
me enterneci com a pequenez
da edição de bolso, compacta, da L&PM
abri o livro
e de um sopetão acabei por ler as 9 primeiras liras

novamente me enterneci
vendo gonzaga a demonstrar a marília que o amor é natural
e que tudo na natureza ama
portanto ela não poderia ir contra a natureza
devendo se entregar ao amor
ouçam contudo como o diz a ela

"Em torno das castas pombas,
Não rulam ternos pombinhos?
E rulam, Marília, em vão?
Não se afagam com os biquinhos?
E a provas de mais ternura
Não os arrasta a paixão?
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção? "

Como não amar estas singelas palavras
que cantam a necessidade de um amor feito também em nossos sentidos
mas sem a necessidade de se dar à derrama
mas todo entregue à sugestão

outra pequena lição
vem destes versos da lira II:

"Na sua face mimosa,
Marília, estão misturadas
Purpúreas folhas de rosa,
Brancas folhas de jasmim.
Dos rubins mais preciosos
Os seus beiços são formados;
Os seus dentes delicados
São pedaços de marfim."

ou nestes da lira IX:

"As abelhas, nas asas suspendidas,
Tiram, Marília, os sucos saborosos
Das orvalhadas flores:
Pendentes dos teus beiços graciosos
Ambrósias chupam, chupam mil feitiços
Nunca fartos Amores."


me restou a questão
quem faria hoje versos a sua amada?
depois; quem cantaria os beiços de sua amada,
sem se entregar a ironia tão pós tudo que vivemos?
por último; o que é o nosso ouvido, o nosso gosto,
ele é realmente nosso
ou tão somente filho da contextura que nos sitia?