do tratado da reforma da inteligência
"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."
domingo, 25 de abril de 2010
Ser – um tantinho de Carlos Drummond de Andrade
O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.
Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apóia em meu ombro
Seu ombro nenhum.
Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?
Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito
não me percebeste,
contudo chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.
O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.
terça-feira, 30 de março de 2010
do abismo da desordem
como a água que é outra a cada instante
assim trago os sentimentos
tenho somente meia razão
e está tudo tão quieto que
mesmo o morto ao lado quebraria
se o tédio faz parte de uma vida
de sentimentos honestos
os homens de boa-vontade
têm um ar magoado
um silêncio de multidão
e a necessidade de poder contar a sua história
porque estar também é dar
e o corpo guarda a solidão do espírito
no impasse do si mesmo
uma solidão árida e grande
a derrocada de um mundo
vista da pequena altura de gente
os males secretos dormem de dia
como baratas invisíveis
que sobem pelos ralos
enquanto a gente sonha
domingo, 21 de março de 2010
pequenas considerações sobre uma carta de Vitor Hugo
O vosso artigo sobre Théophile Gautier, meu senhor, é uma dessas páginas que provocam a reflexão. Mérito raro, fazer pensar; dom unicamente dos eleitos. Não vos enganais ao prever alguma dissidência entre nós. Entendo toda a vossa filosofia (pois como todo o poeta, tendes filosofia); faço mais do que compreendê-la, admito-a; mas conservo a minha. Nunca disse a Arte pela Arte; disse sempre: a Arte pelo progresso. No fundo é a mesma coisa e vosso espírito é por demais penetrante para deixar de percebê-lo. Avante! É a frase do Progresso; é também o grito da Arte. Todo o verbo da Poesia aí está. Ite.
Que fazeis ao escrever estes versos surpreendentes: " Os sete anciãos" e "As velhinhas" que me dedicais e pelos quais vos agradeço. Que fazeis? Caminhais. Avançais. Dotais o céu da arte de não sei que raio macabro. Criais um arrepio novo.
A Arte não é perfectível, creio ter sido um dos primeiros a dizê-lo, portanto, sei disso; ninguém ultrapassará Esquilo, ninguém ultrapassará Fídias, mas podemos igualá-los; e, para isso, é preciso deslocar o horizonte da Arte; ir mais alto, ir mais longe, caminhar. O poeta não pode ir sozinho, é preciso que o homem se desloque também. Os passos da Humanidade são, portanto, os próprios passos da Arte. Portanto, glória ao Progresso.
É pelo progresso que sofro neste momento e que estou pronto para morrer. (De uma carta de Vitor Hugo a Baudelaire)
*********************************************************************************
O primeiro excerto em negrito parece de certo modo correto. De outro ângulo, na arte sempre sobra algo inacabado, portanto não corrijo Ésquilo ou Fídias, contudo estes, se eternos fossem, provavelmente estariam se autocorrigindo constantemente, por se crerem longe da perfeição. Portanto, a arte não é perfectível não porque ela seja perfeita, mas isto sim, por sempre estar a lhe faltar algo com que se lhe dê um fim, ou seja, pela sua incompletude.
O segundo excerto em negrito me pareceria um tanto melhor se pudéssemos invertê-lo, dizendo: os passos da arte são, portanto, os próprios passos da humanidade. Ordem que nos obriga a descrer na função do artista desbravador, nos insere na realidade de um artista que anda, como de resto a humanidade, em círculos, tateando o desconhecido e firmando-se num terreno escorregadiço sobre o abismo, que nos conduz a este interminável confronto com a morte. Morte que, como o lobo na floresta, nos aponta e nos tange a trilhar este caminho sem fim.
quarta-feira, 17 de março de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
amigos de viagem
Comecei a tomar contato com Peter, Paul and Mary nos meados dos 80. Primeiro nas conversas com meu amigo Ivaldo Araujo, depois num LP lançado pela Band, onde ouvi pela primeira vez com consciência, pois Peter , Paul and Mary (PP&M) certamente fazem parte do inconsciente de quem nasceu na década de 60. Mais adiante, final dos 80 ou início dos noventa encontrei o LP Ten Years Together. Disco com vários dos seus hits (500 miles, blowin' in the Wind, if I had a hammer, lemon tree, early morning rain, Puff the magic dragon, leaving on jet plane). Comprei, um pra mim, outro pro meu amigo. Escutei muito àquele LP, me encantava o que nele considerava simples, despojado e acolhedor.
Nos tempos do planos econômicos que grassaram pelo país, houve momentos em que se tornou viável a compra do cd importado, quando adquiri vários de PP&M. Também tive o vídeo cassete do show Life Lines Live, onde convidam amigos, um deles Odetta, que canta House of rising Sun, uma maravilha, descoberta inesquecível.
Por que tanto PP&M por aqui agora ? Mary Travers morreu dia 9 de setembro de 2009 aos 72 anos. O que me obrigou a numa pequena tentativa de homenagem, compartilhar o que estes três companheiros de viagem me proporcionaram nestes últimos 20 anos.
domingo, 31 de janeiro de 2010
pp&m
http://www.youtube.com/watch?v=bwB2A9HHaCU
http://www.youtube.com/watch?v=_UKvpONl3No
http://www.youtube.com/watch?v=Wik2uc69WbU
http://www.youtube.com/watch?v=0OCnHNk2Hac
http://www.youtube.com/watch?v=3t4g_1VoGw4
http://www.youtube.com/watch?v=1oU7M4OeSRM
http://www.youtube.com/watch?v=U2HSfKjOKYI
http://www.youtube.com/watch?v=HPbB5n-OW8Q
http://www.youtube.com/watch?v=GCPAhR09wCA
http://www.youtube.com/watch?v=Fa3h3pnhg8s
http://www.youtube.com/watch?v=qUnvjYH9wK4
http://www.youtube.com/watch?v=Fto9ji994JY
http://www.youtube.com/watch?v=_UKvpONl3No
http://www.youtube.com/watch?v=Wik2uc69WbU
http://www.youtube.com/watch?v=0OCnHNk2Hac
http://www.youtube.com/watch?v=3t4g_1VoGw4
http://www.youtube.com/watch?v=1oU7M4OeSRM
http://www.youtube.com/watch?v=U2HSfKjOKYI
http://www.youtube.com/watch?v=HPbB5n-OW8Q
http://www.youtube.com/watch?v=GCPAhR09wCA
http://www.youtube.com/watch?v=Fa3h3pnhg8s
http://www.youtube.com/watch?v=qUnvjYH9wK4
http://www.youtube.com/watch?v=Fto9ji994JY
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Tornar à origem
Por que Faial dos açores? Fiz o poema postado abaixo das fotos. E procurava uma imagem com que se pudesse fazer um link com o tema do retorno. Então sei eu lá por que resolvi pesquisar o nome de meu bisavô no Google (Manuel da Costa Medeiros). Descobri que tem gente pesquisando as origens da família. E parece bem provável que se inicie em Faial. Procurei fotos de Faial, me pareceu bonito, e postei. Torna-se um pouco atrás, para bem prosseguir aqui ou em outro qualquer lugar.
domingo, 24 de janeiro de 2010
sábado, 23 de janeiro de 2010
terminado em 22/01/2010
só
ao findar do dia
torno à minha casa
mas que retorno pode haver
se o que torna não é o mesmo que parte
se aquilo que fica
e te acolhe no fim da trilha
já não é senão o duplo do que deixaste
domingo, 17 de janeiro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
o repente extemporâneo de uma verdade
Hoje cheguei num bar da cidade, em uma atmosfera pessoal um tanto lúgubre. Tudo, tudo o que estava ao meu redor era muito, muito melhor do que eu em qualquer momento da minha vida poderia ser. Bebi algumas. O que poderia ter contribuído para que o lúgubre vingasse inda mais. Mas por vezes trazemos o livro certo, abri, e li um monte de considerações quanto a impossibilidade de entender a rede de causalidades que nos cinge. Passei de um estado de total desconcerto frente à realidade para um sentimento de gostoso de estar contente em poder com-templar (quem sabe possamos dizer, ser contemporâneo de) tudo, tudo o que somos e vemos neste momento.
O que nos diz Chopra; creio de um modo preciso: "Quando você atua a partir dessa referência interior, o seu senso do eu está claro e não é afetado por fatores externos. Essa é a origem do poder pessoal. Quando os fatores externos deixam de influenciar o seu senso do eu, você se torna imune às críticas e aos elogios. Você também entende que somos todos iguais, por estarmos ligados ao mesmo fluxo de inteligência consciente. Isso significa que você compreende que enquanto passa pela vida, não é inferior nem superior a ninguém. Não precisa implorar ou convencer ninguém de nada porque não precisa convencer a si mesmo."
Portanto mantenhamo-nos fíéis a nós mesmos, sempre, e sejamos felizes o quanto possamos, mesmo nos momentos de baixa. Pois de resto, mesmo aqui, nos confins da nossa rede de causalidades, presente, sempre há a probabilidade de um entrechoque com um momento, um naco, de felicidade, muitas vezes basta persistir um pouco mais, dar duas ou três braçadas, flutuar, e esperar que a próxima onda vença o repuxo, e possamos novamente, já na praia, respirar com um pouco mais de tranquilidade.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
domingo, 3 de janeiro de 2010
Um tantinho de Ernesto Sábato (de O escritor e seus Fantasmas)
Uma literatura da esperança
O homem é feito não apenas de desesperança, mas também, e fundamentalmente, de fé e esperança; não somente de morte, mas também de ânsias de vida; tampouco unicamente de solidão, mas também de comunhão e amor. A obra de Saint-Exupéry mostra como a literatura pode ser profunda e, não obstante, estar impregnada de cálidos sentimentos positivos. Disse Nietzsche que um pessimista é um idealista ressentido. Se modificarmos levemente o aforismo, dizendo que é um idealista desiludido, daí poderíamos passar a sustentar que é um homem que não termina jamais de se desiludir, pois há na condição psicológica do idealista uma espécie de ingenuidade inesgotável. E assim como a desilusão nasce da ilusão, a desesperança surge da esperança; mas uma e outra, desilusão e desesperança, são curiosamente o signo da profunda e generosa fé no homem.
Os céticos, os que nunca crêem em nada, tampouco chegam a ser pessimistas. Por isso, a literatura de hoje, a mais poderosa e genuína, jamais cai no mero ceticismo, como o fazia com tanta freqüência nos encantadores tempos de Anatole France: ela incorre na trágica desesperança que vem depois do desmoronamento de uma fé e que quase invariavelmente é o anúncio de outra. O homem precisa de uma ordem, uma estrutura sólida para fincar pé. Achou que a encontrara na ordem científica, mas por fim compreendeu que ela era alheia as nossas necessidades espirituais mais profundas: o desmoronamento da civilização tecnólatra quaisquer que sejam suas causas materiais, revelou que essa ordem científica, longe de nos oferecer uma base segura, nos convertia em escravos de uma engrenagem implacável; quando acreditamos ter conquistado o mundo, descobrimos que estávamos a ponto de ser esmagados por ele. Em vastos movimentos, os homens se precipitaram então rumo a novas religiões laicas ou políticas, quando não se reintegraram no âmbito das religiões antigas e autênticas.
E em tais condições, surgiu a nova literatura. Primeiro, como uma investigação ansiosa do caos, como um exame da condição do homem em meio a confusão. Depois, e por meio dessa indagação, como uma tentativa mais ou menos obscura de nos oferecer também essa ordem de que necessitamos, um rumo em meio à tempestade.
Para isso, foi preciso derrubar os falsos valores de uma sociedade, regida por fetiches ou por pequenos e farisaicos deuses burgueses.
Mas a esfera do romance é o mundo dos desejos, dos sonhos e ilusões, da realidade que não foi ou não pode ser: sempre um pouco ao inverso do mundo cotidiano; sempre um pouco a tendência a realizar o contrário do que nos rodeia. Desse modo, no século da ordem burguesa, proclamou a desordem e a anarquia, e heróis como Raskolnikov puseram bombas sob as pontes e vias de comunicação da sociedade hipócrita em que sofriam. Mas agora, quando as guerras totais e os totalitarismos nos trouxeram o caos universal, o romance busca inconscientemente uma nova terra da esperança, uma luz no meio das trevas, uma terra firme em meio à gigantesca inundação. Destruiu-se demais. E quando o real é a destruição, o romanesco só pode ser a construção de alguma outra fé.
Se esta tese esta correta, não é arriscado supor que nos próximos anos o romance que mais ressonância terá no coração dos homens será aquele que, de alguma maneira, seja capaz de suscitar uma nova mas genuína esperança.
Um tantinho de Clarice Lispector (de Perto do Coração Selvagem)
Margarida a Violeta conhecia
uma era cega, uma bem louca vivia
a cega sabia o que a doida dizia
e terminou vendo o que ninguém mais via ...
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Uma pequena contribuição ao lirismo contemporâneo
Ontem terminei de ler O Menino do Dedo Verde, havia escutado muitas pessoas elogiar o livro. É indiscutivelmente um belo livro. Também havia escutado muitas vezes repetirem uma comparação com O Pequeno Príncipe, no Brasil acho que ainda mais reforçada; pois D. Marcos Barbosa fez a tradução de ambos. Ambos falam de um menino. De sua descoberta do mundo. E de flores. Ambos são profundamente metafóricos. Mas me parece que devemos aprofundar um pouco mais a nossa comparação. Descobrindo não somente semelhanças, mas também suas diferenças.
De um lado temos o principezinho que deixa a sua casa (asteróide), na qual cuida de uma rosa frágil, que necessita de seus cuidados para continuar a viver. A flor aqui se revela como símbolo de fragilidade. De outro lado Tistu não está preocupado em não ferir quem o cerca, mas sim em mudar o mundo, fazendo vingar flores e plantas de qualquer substrato que se lhe apresente. Pois qualquer coisa carrega em si sementes de flores. Aqui, portanto, as flores não significam o frágil, mas sim a força e o vigor de quem é capaz de mudar tudo. As flores aqui mais contestam do que testemunham as coisas do mundo.
Acho que como toda boa história, ambos nos levam a confrontar a morte. Mas o que nos diz um e outro sobre este mesmo tema. O principezinho morre, pois se entrega a picada de uma serpente que é capaz de lhe levar de novo a sua casa. Onde encontrará a rosa que ele deixou, e a quem ama. Já Tistu constrói uma escada que o leva ao céu. Para um a morte é um remédio, que nos leva a origem. Para outro, como nos diz Ginástico, a morte é o único mal contra o qual as flores nada podem.
O que nos leva o concluir de certa forma que ambos são diametralmente opostos. E neste caso, complementares. Um é o que poderíamos rotular como um livro de sabedoria. O outro como um livro de esperança (ilusão). Ambos infinitamente belos.
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