do tratado da reforma da inteligência
"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."
sábado, 23 de janeiro de 2010
terminado em 22/01/2010
só
ao findar do dia
torno à minha casa
mas que retorno pode haver
se o que torna não é o mesmo que parte
se aquilo que fica
e te acolhe no fim da trilha
já não é senão o duplo do que deixaste
domingo, 17 de janeiro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
o repente extemporâneo de uma verdade
Hoje cheguei num bar da cidade, em uma atmosfera pessoal um tanto lúgubre. Tudo, tudo o que estava ao meu redor era muito, muito melhor do que eu em qualquer momento da minha vida poderia ser. Bebi algumas. O que poderia ter contribuído para que o lúgubre vingasse inda mais. Mas por vezes trazemos o livro certo, abri, e li um monte de considerações quanto a impossibilidade de entender a rede de causalidades que nos cinge. Passei de um estado de total desconcerto frente à realidade para um sentimento de gostoso de estar contente em poder com-templar (quem sabe possamos dizer, ser contemporâneo de) tudo, tudo o que somos e vemos neste momento.
O que nos diz Chopra; creio de um modo preciso: "Quando você atua a partir dessa referência interior, o seu senso do eu está claro e não é afetado por fatores externos. Essa é a origem do poder pessoal. Quando os fatores externos deixam de influenciar o seu senso do eu, você se torna imune às críticas e aos elogios. Você também entende que somos todos iguais, por estarmos ligados ao mesmo fluxo de inteligência consciente. Isso significa que você compreende que enquanto passa pela vida, não é inferior nem superior a ninguém. Não precisa implorar ou convencer ninguém de nada porque não precisa convencer a si mesmo."
Portanto mantenhamo-nos fíéis a nós mesmos, sempre, e sejamos felizes o quanto possamos, mesmo nos momentos de baixa. Pois de resto, mesmo aqui, nos confins da nossa rede de causalidades, presente, sempre há a probabilidade de um entrechoque com um momento, um naco, de felicidade, muitas vezes basta persistir um pouco mais, dar duas ou três braçadas, flutuar, e esperar que a próxima onda vença o repuxo, e possamos novamente, já na praia, respirar com um pouco mais de tranquilidade.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
domingo, 3 de janeiro de 2010
Um tantinho de Ernesto Sábato (de O escritor e seus Fantasmas)
Uma literatura da esperança
O homem é feito não apenas de desesperança, mas também, e fundamentalmente, de fé e esperança; não somente de morte, mas também de ânsias de vida; tampouco unicamente de solidão, mas também de comunhão e amor. A obra de Saint-Exupéry mostra como a literatura pode ser profunda e, não obstante, estar impregnada de cálidos sentimentos positivos. Disse Nietzsche que um pessimista é um idealista ressentido. Se modificarmos levemente o aforismo, dizendo que é um idealista desiludido, daí poderíamos passar a sustentar que é um homem que não termina jamais de se desiludir, pois há na condição psicológica do idealista uma espécie de ingenuidade inesgotável. E assim como a desilusão nasce da ilusão, a desesperança surge da esperança; mas uma e outra, desilusão e desesperança, são curiosamente o signo da profunda e generosa fé no homem.
Os céticos, os que nunca crêem em nada, tampouco chegam a ser pessimistas. Por isso, a literatura de hoje, a mais poderosa e genuína, jamais cai no mero ceticismo, como o fazia com tanta freqüência nos encantadores tempos de Anatole France: ela incorre na trágica desesperança que vem depois do desmoronamento de uma fé e que quase invariavelmente é o anúncio de outra. O homem precisa de uma ordem, uma estrutura sólida para fincar pé. Achou que a encontrara na ordem científica, mas por fim compreendeu que ela era alheia as nossas necessidades espirituais mais profundas: o desmoronamento da civilização tecnólatra quaisquer que sejam suas causas materiais, revelou que essa ordem científica, longe de nos oferecer uma base segura, nos convertia em escravos de uma engrenagem implacável; quando acreditamos ter conquistado o mundo, descobrimos que estávamos a ponto de ser esmagados por ele. Em vastos movimentos, os homens se precipitaram então rumo a novas religiões laicas ou políticas, quando não se reintegraram no âmbito das religiões antigas e autênticas.
E em tais condições, surgiu a nova literatura. Primeiro, como uma investigação ansiosa do caos, como um exame da condição do homem em meio a confusão. Depois, e por meio dessa indagação, como uma tentativa mais ou menos obscura de nos oferecer também essa ordem de que necessitamos, um rumo em meio à tempestade.
Para isso, foi preciso derrubar os falsos valores de uma sociedade, regida por fetiches ou por pequenos e farisaicos deuses burgueses.
Mas a esfera do romance é o mundo dos desejos, dos sonhos e ilusões, da realidade que não foi ou não pode ser: sempre um pouco ao inverso do mundo cotidiano; sempre um pouco a tendência a realizar o contrário do que nos rodeia. Desse modo, no século da ordem burguesa, proclamou a desordem e a anarquia, e heróis como Raskolnikov puseram bombas sob as pontes e vias de comunicação da sociedade hipócrita em que sofriam. Mas agora, quando as guerras totais e os totalitarismos nos trouxeram o caos universal, o romance busca inconscientemente uma nova terra da esperança, uma luz no meio das trevas, uma terra firme em meio à gigantesca inundação. Destruiu-se demais. E quando o real é a destruição, o romanesco só pode ser a construção de alguma outra fé.
Se esta tese esta correta, não é arriscado supor que nos próximos anos o romance que mais ressonância terá no coração dos homens será aquele que, de alguma maneira, seja capaz de suscitar uma nova mas genuína esperança.
Um tantinho de Clarice Lispector (de Perto do Coração Selvagem)
Margarida a Violeta conhecia
uma era cega, uma bem louca vivia
a cega sabia o que a doida dizia
e terminou vendo o que ninguém mais via ...
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Uma pequena contribuição ao lirismo contemporâneo
Ontem terminei de ler O Menino do Dedo Verde, havia escutado muitas pessoas elogiar o livro. É indiscutivelmente um belo livro. Também havia escutado muitas vezes repetirem uma comparação com O Pequeno Príncipe, no Brasil acho que ainda mais reforçada; pois D. Marcos Barbosa fez a tradução de ambos. Ambos falam de um menino. De sua descoberta do mundo. E de flores. Ambos são profundamente metafóricos. Mas me parece que devemos aprofundar um pouco mais a nossa comparação. Descobrindo não somente semelhanças, mas também suas diferenças.
De um lado temos o principezinho que deixa a sua casa (asteróide), na qual cuida de uma rosa frágil, que necessita de seus cuidados para continuar a viver. A flor aqui se revela como símbolo de fragilidade. De outro lado Tistu não está preocupado em não ferir quem o cerca, mas sim em mudar o mundo, fazendo vingar flores e plantas de qualquer substrato que se lhe apresente. Pois qualquer coisa carrega em si sementes de flores. Aqui, portanto, as flores não significam o frágil, mas sim a força e o vigor de quem é capaz de mudar tudo. As flores aqui mais contestam do que testemunham as coisas do mundo.
Acho que como toda boa história, ambos nos levam a confrontar a morte. Mas o que nos diz um e outro sobre este mesmo tema. O principezinho morre, pois se entrega a picada de uma serpente que é capaz de lhe levar de novo a sua casa. Onde encontrará a rosa que ele deixou, e a quem ama. Já Tistu constrói uma escada que o leva ao céu. Para um a morte é um remédio, que nos leva a origem. Para outro, como nos diz Ginástico, a morte é o único mal contra o qual as flores nada podem.
O que nos leva o concluir de certa forma que ambos são diametralmente opostos. E neste caso, complementares. Um é o que poderíamos rotular como um livro de sabedoria. O outro como um livro de esperança (ilusão). Ambos infinitamente belos.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Andei lendo um tanto e muito de Clarice Lispector, e não me canso de achar que ela sabia das coisas e continua sempre atual. Aí vai um pouquinho do quanto ela soube ser genial:
"Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa."
domingo, 29 de novembro de 2009
23/11/09
começo a viagem
com eles chegando ao caminho das pedras
interdito
ele afável
ela em seu jeito
natural
eles sabem onde vão
eu sei
e por isto
mesmo alhures
testifico
faço um primeiro pesponto
espargindo
um pouco da solução
volátil sobre a pele dela
um pouco fica, algo se libera do extrato
que opera
suave
sobre as superfícies despertas
faço o segundo pesponto
e vejo a tela de nuvens negras
abrir-se em franja ao poente de depois da chuva
feita de um amarelo brancacento
que pensa o branco em mim
assim como quem diz
é só isto
em tudo e por fim
faço então o último pesponto
apanho estas três coisas
e ponho-as em tuas mãos
te beijo
arrumo a cama
e como bem pouco sei de tudo
e pouco resta
durmo
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
a minha escrita
obtusa e seca
segue indelicada
e não se desvia
de sua fatalidade
nenhuma benevolência
há no que escrevo
e na dedicatória
está o que sufoca
rolo compressor
na loucura do que escrevo não sou
totalmente louco
antes imprevisível
como a trajetória de uma
mosca no interior da sala
o atordoamento de um
acaso sobrenatural
de minha consciência fiz minha droga
todos os meus fracassos
se assemelham
procedem da mesma falha
na minha escrita
lisa como uma imagem
restaurada na superfície legível
das palavras
tergiverso
se escondo uma paixão
que todos saibam o que não quero mostrar
na linguagem, um adulto
perfeitamente civilizado
discutindo com a criança
teimosa que meu corpo guarda
na região desesperada
entre o muito e o muito pouco
onde não estou
precisamente ali começa
minha escrita
sem o luto da própria sinceridade
algum poder se encontra
no fazer esperar
obtusa e seca
segue indelicada
e não se desvia
de sua fatalidade
nenhuma benevolência
há no que escrevo
e na dedicatória
está o que sufoca
rolo compressor
na loucura do que escrevo não sou
totalmente louco
antes imprevisível
como a trajetória de uma
mosca no interior da sala
o atordoamento de um
acaso sobrenatural
de minha consciência fiz minha droga
todos os meus fracassos
se assemelham
procedem da mesma falha
na minha escrita
lisa como uma imagem
restaurada na superfície legível
das palavras
tergiverso
se escondo uma paixão
que todos saibam o que não quero mostrar
na linguagem, um adulto
perfeitamente civilizado
discutindo com a criança
teimosa que meu corpo guarda
na região desesperada
entre o muito e o muito pouco
onde não estou
precisamente ali começa
minha escrita
sem o luto da própria sinceridade
algum poder se encontra
no fazer esperar
É com o coração cheio de alegria que soube que meu livro, Tramas de Orvalho, está entre os três finalistas para o Prêmio Livro do Ano, da AGES, Associação Gaúcha de Escritores, categoria poesia, juntamente com Telma e Marlon. Dia 12 de novembro, agora, será divulgado o nome do vencedor, junto com os demais escritores, nas várias categorias participantes. Grande vitória estar entre os nomes da literatura rio-grandense, tão pródiga. Desde já vão meus agradecimentos aos participantes da escolha.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
caetanos
http://www.youtube.com/watch?v=Gz8UZZ-r-q0
http://www.youtube.com/watch?v=Ur4KW83CviQ
http://www.youtube.com/watch?v=9YgDmt1FoT0
http://www.youtube.com/watch?v=ZaxDlDbMppE
http://www.youtube.com/watch?v=btn7E8yYvaM
http://www.youtube.com/watch?v=Ik0U1PIMxTk
terça-feira, 27 de outubro de 2009
de legião estrangeira de clarice
Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela segurasse no colo o filho. E dissesse: cure meu filho. Eu diria como é que se faz? Ela responderia: cure meu filho. Eu diria: também não sei. Ela responderia: cure meu filho. Então – então porque não sei fazer nada e porque não me lembro de nada e porque é de noite – então estendo a mão e salvo a criança. Porque é de noite, porque estou sozinha na noite de outra pessoa, porque este silêncio é muito grande para mim, porque tenho duas mãos para sacrificar a melhor delas e porque não tenho escolha.
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