do tratado da reforma da inteligência

"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."

quinta-feira, 11 de novembro de 2010



escada pede um lugar de morar
marcenaria alinhada
madeira aparente
peroba-do-campo e descanso às lembranças



o sobrado tinha



refúgio não garante proteção



sábado, 23 de outubro de 2010

guardo muitas noites
e seus pesadelos atrasados
vários retratos nunca tirados
de dentro de meu quarto
e a chuva esquecida de outonos
que brota da boca
e sopra palavras
versos afora



nos olhos, a cor repete gestos obscenos
vigiando as manhãs mal dormidas
as horas jamais antecipadas
não escritas nos papéis
onde constara meu nome
onde não corria qualquer pedaço de rio
e a água estagnada
cheirava a morte



quinta-feira, 14 de outubro de 2010


beijo onde não queres beijo


a ferida aberta a fórceps


a decência escancarada


tua alma teu trauma


tua entranha


beijo





segunda-feira, 4 de outubro de 2010



Aí vai mais um poema do novo livro, Córrego de amarras:




olhos
dois lagos que piscam
concisão do azul indeciso
violinos silvestres
saturados de substância
empalidecem lilazes




lívidos lírios




cair-se de amor de suma altura
e aprender a nascer velho a cada dia
a tecer invenção
a calar iniquidades
na insanidade que é ter
garça distraída
além do limite do isento
livre como ser ninguém




caminho por escrito
nessa caligrafia coreografada
em casa larga
boca-traço sem nome
o prumo do riso
de um dizer sempre oblíquo

quarta-feira, 22 de setembro de 2010


De hoje em diante, caminho sozinha. A incompetência das pernas ainda parece maior do que a vontade de prosseguir, sem parceria, nessa empreitada, mas quero muito tentar. Confesso que a contribuição do Jaime fará muita falta, já que ele é quem vinha tocando quase tudo sozinho por aqui. Seguirei no mesmo rumo, entretanto. A cara do blog já mudou, mas só um pouco e, não estranhem se isso se tornar habitual, pois adoro mudanças. Faz parte de minha essência geminiana. Para conhecimento de todos, acabo de lançar meu segundo livro, pela editora Movimento, chamado Córrego de Amarras, lançamento esse que se deu no dia 10 de setembro passado, na livraria Palavraria, noite muito feliz para mim. Então, aí vai postagem com um dos poemas que constam do livro:




na sua voz, o que há de intratável

no gesto do corpo apanhado em ação e imobilizado

o curto fôlego das figuras

as palavras, nunca loucas, estão, no máximo, perversas

e, nas mais suaves, o sobressalto de um suspense



engendro monstros para não subestimar o poder do acaso

dissolvido, não sou recolhido em parte alguma

no ruído de um rasgão

o horror do estrago ainda mais forte do que a angústia da perda

plantado no lugar, sofro feito um pacote num canto esquecido da estação

falo pelo buraco na fechadura da linguagem

colho fungos na raiz do poema sequer dito

e minhas verdades não posso ler em qualquer recanto do corpo adverso

digo meu plural onde me ofereço em carinhos

mesmo quando nada tenho a dizer

ainda assim é a ti que digo nada

e te amo como se deve amar, em desespero, asfixiado de dor

num relâmpago frio

sequer o belo véu do silêncio

pode chorar todas as lágrimas do meu corpo



peço à pele que responda ao meu afeto

como se tivesse dedos na ponta de minhas palavras

cultivo esse roçar na escrita seca e obtusa

totalidade indelicada



o que me sufoca

inquietação que desgasta o ser

e no entanto não mata

porque não se morre de dor



escalpelado, sou poeta apenas quanto ao começo

faço luto à minha própria sinceridade

o corpo arrebenta em dizer quando calo minha voz

e escureço minha própria vista para não ser visto

sábado, 11 de setembro de 2010

despedidas [jaime]

Hoje deixo o blog. Migro para o novo blog. Resolvi após pensar um pouquinho partir novamente fazer um blog em modo solo. Deixo este espaço na certeza de ficar bem representado pela minha amiga Deisi Beier. Poeta das mais interessantes e agora com o seu novo livro Córrego de Amarras. Lançado ontem, dia 10/09/10.
Agora vocês me encontrarão em dois blogs, um destinado ao que designei prosa ligeira, que se chama tênues considerações e outro, destinado a poesia e a de um tudo sobre poesia, que se designará o arco da lira

domingo, 15 de agosto de 2010

Um tantinho de Vínicius de Moraes

Pátria Minha


 

A minha pátria é como se não fosse, é íntima

Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo

É minha pátria. Por isso, no exílio

Assistindo dormir meu filho

Choro de saudades de minha pátria.


 

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:

Não sei. De fato, não sei

Como, porque e quando a minha pátria

Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água

Que elaboram e liquefazem a minha mágoa

Em longas lágrimas amargas


 

Vontade de beijar os olhos de minha pátria

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos

E sem meias, pátria minha

Tão pobrinha!


 

Por que te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho

Pátria, eu semente que nasci do vento

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço

Em contato com a dor do tempo, eu elemento

De ligação entre a ação e o pensamento

Eu fio invisível no espaço de todo o adeus

Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido

De flor; tenho-te como um amor morrido

A quem se jurou; tenho-te como uma fé

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito

Nesta sala esrangeira com lareira

E sem pé-direito


 

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova

[Inglaterra

Quando tudo passou a ser infinito e nada terra

E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu

Muitos me Surpreenderam parado no campo sem luz

À espera de ver surgir a Cruz do Sul

Que eu sabia, mas amanheceu...


 

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha

Amada, idolatrada, salve, salve !

Que mais doce esperança acorrentada

O não poder dizer-te: aguarda...

Não tardo !


 

Quero rever-te, pátria minha, e para

Rever-te me esqueci de tudo

Fui cego, estropiado, surdo, mudo

Vi minha humilde morte cara a cara

Rasguei poemas, mulheres, horizontes

Fiquei simples, sem fontes


 


 


 

Pátria minha ... a minha pátria não é florão, nem ostenta

Lábaro não; a minha pátria é desolação

De caminhos, a minha pátria é terra sedenta

E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular

Que bebe nuvem, come terra

E urina mar.


 

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem

Uma quentura, um querer bem, um bem

Um libertas quae sera tamen

Que um dia traduzi num exame escrito:

"Liberta que serás também"

E repito!


 

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa

Que brinca em teus cabelos e te alisa

Pátria minha, e perfuma o teu chão...

Que vontade me vem de adormecer-me

Entre teus doces montes, pátria minha

Atento a fome em tuas entranhas

E ao batuque em teu coração.


 

Não te direi o nome, pátria minha

Teu nome é pátria amada, é patriazinha

Não rima com mãe gentil

Vives em mim como uma filha, que és

Uma ilha de ternura: a Ilha

Brasil, talvez.


 


 

Agora chamarei a amiga cotovia

E pedirei que peça ao rouxinol do dia

Que peça ao sabiá

Para levar-te presto este avigrama:

"Pátria minha, saudades de quem te ama ...

Vínicius de Moraes".

sexta-feira, 16 de julho de 2010

um tantinho de Murilo Mendes


A Outra Infância

 
Meninos que daqui não vejo
Dançam e cantam de roda no terreiro ao lado.

 
O menino que também brincou de roda
Seria mesmo eu? Creio que não.
(Viramos crianças
Ao imaginar a criança que não fomos.)
Já era outro menino, já pensava,
Iluminando-me com duas luas
- Uma na cabeça.


domingo, 25 de abril de 2010

Ser – um tantinho de Carlos Drummond de Andrade



 

O filho que não fiz

hoje seria homem.

Ele corre na brisa,

sem carne, sem nome.


 

Às vezes o encontro

num encontro de nuvem.

Apóia em meu ombro

Seu ombro nenhum.


 

Interrogo meu filho,

objeto de ar:

em que gruta ou concha

quedas abstrato?


 

Lá onde eu jazia,

responde-me o hálito

não me percebeste,

contudo chamava-te


 

como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo

aspira a criar-se.


 

O filho que não fiz

faz-se por si mesmo.

terça-feira, 30 de março de 2010



do abismo da desordem
como a água que é outra a cada instante
assim trago os sentimentos
tenho somente meia razão
e está tudo tão quieto que
mesmo o morto ao lado quebraria
se o tédio faz parte de uma vida
de sentimentos honestos
os homens de boa-vontade
têm um ar magoado
um silêncio de multidão
e a necessidade de poder contar a sua história
porque estar também é dar
e o corpo guarda a solidão do espírito
no impasse do si mesmo
uma solidão árida e grande
a derrocada de um mundo
vista da pequena altura de gente

os males secretos dormem de dia
como baratas invisíveis
que sobem pelos ralos
enquanto a gente sonha

domingo, 21 de março de 2010

pequenas considerações sobre uma carta de Vitor Hugo



 
    O vosso artigo sobre Théophile Gautier, meu senhor, é uma dessas páginas que provocam a reflexão. Mérito raro, fazer pensar; dom unicamente dos eleitos. Não vos enganais ao prever alguma dissidência entre nós. Entendo toda a vossa filosofia (pois como todo o poeta, tendes filosofia); faço mais do que compreendê-la, admito-a; mas conservo a minha. Nunca disse a Arte pela Arte; disse sempre: a Arte pelo progresso. No fundo é a mesma coisa e vosso espírito é por demais penetrante para deixar de percebê-lo. Avante! É a frase do Progresso; é também o grito da Arte. Todo o verbo da Poesia aí está. Ite.
    Que fazeis ao escrever estes versos surpreendentes: " Os sete anciãos" e "As velhinhas" que me dedicais e pelos quais vos agradeço. Que fazeis? Caminhais. Avançais. Dotais o céu da arte de não sei que raio macabro. Criais um arrepio novo.
    A Arte não é perfectível, creio ter sido um dos primeiros a dizê-lo, portanto, sei disso; ninguém ultrapassará Esquilo, ninguém ultrapassará Fídias, mas podemos igualá-los; e, para isso, é preciso deslocar o horizonte da Arte; ir mais alto, ir mais longe, caminhar. O poeta não pode ir sozinho, é preciso que o homem se desloque também. Os passos da Humanidade são, portanto, os próprios passos da Arte. Portanto, glória ao Progresso.
    É pelo progresso que sofro neste momento e que estou pronto para morrer. (De uma carta de Vitor Hugo a Baudelaire)


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    O primeiro excerto em negrito parece de certo modo correto. De outro ângulo, na arte sempre sobra algo inacabado, portanto não corrijo Ésquilo ou Fídias, contudo estes, se eternos fossem, provavelmente estariam se autocorrigindo constantemente, por se crerem longe da perfeição. Portanto, a arte não é perfectível não porque ela seja perfeita, mas isto sim, por sempre estar a lhe faltar algo com que se lhe dê um fim, ou seja, pela sua incompletude.
    O segundo excerto em negrito me pareceria um tanto melhor se pudéssemos invertê-lo, dizendo: os passos da arte são, portanto, os próprios passos da humanidade. Ordem que nos obriga a descrer na função do artista desbravador, nos insere na realidade de um artista que anda, como de resto a humanidade, em círculos, tateando o desconhecido e firmando-se num terreno escorregadiço sobre o abismo, que nos conduz a este interminável confronto com a morte. Morte que, como o lobo na floresta, nos aponta e nos tange a trilhar este caminho sem fim.
    

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

amigos de viagem


Comecei a tomar contato com Peter, Paul and Mary nos meados dos 80. Primeiro nas conversas com meu amigo Ivaldo Araujo, depois num LP lançado pela Band, onde ouvi pela primeira vez com consciência, pois Peter , Paul and Mary (PP&M) certamente fazem parte do inconsciente de quem nasceu na década de 60. Mais adiante, final dos 80 ou início dos noventa encontrei o LP Ten Years Together. Disco com vários dos seus hits (500 miles, blowin' in the Wind, if I had a hammer, lemon tree, early morning rain, Puff the magic dragon, leaving on jet plane). Comprei, um pra mim, outro pro meu amigo. Escutei muito àquele LP, me encantava o que nele considerava simples, despojado e acolhedor.
Nos tempos do planos econômicos que grassaram pelo país, houve momentos em que se tornou viável a compra do cd importado, quando adquiri vários de PP&M. Também tive o vídeo cassete do show Life Lines Live, onde convidam amigos, um deles Odetta, que canta House of rising Sun, uma maravilha, descoberta inesquecível.
Por que tanto PP&M por aqui agora ? Mary Travers morreu dia 9 de setembro de 2009 aos 72 anos. O que me obrigou a numa pequena tentativa de homenagem, compartilhar o que estes três companheiros de viagem me proporcionaram nestes últimos 20 anos.

domingo, 31 de janeiro de 2010

odetta

pp&m

http://www.youtube.com/watch?v=bwB2A9HHaCU



http://www.youtube.com/watch?v=_UKvpONl3No




http://www.youtube.com/watch?v=Wik2uc69WbU




http://www.youtube.com/watch?v=0OCnHNk2Hac




http://www.youtube.com/watch?v=3t4g_1VoGw4




http://www.youtube.com/watch?v=1oU7M4OeSRM




http://www.youtube.com/watch?v=U2HSfKjOKYI




http://www.youtube.com/watch?v=HPbB5n-OW8Q




http://www.youtube.com/watch?v=GCPAhR09wCA




http://www.youtube.com/watch?v=Fa3h3pnhg8s




http://www.youtube.com/watch?v=qUnvjYH9wK4




http://www.youtube.com/watch?v=Fto9ji994JY