do tratado da reforma da inteligência

"tudo o que acontece na vida ordinária é vão e fútil ....As coisas que mais frequentemente ocorrem na vida, estimadas como o supremo bem pelos homens, a julgar pelo que eles praticam, reduzem-se, efetivamente, a estas três, a saber, a riqueza, as honras e o prazer dos sentidos. Com estas três coisas a mente se distrai de tal maneira que muito pouco pode cogitar de qualquer outro bem. ... Assim, parecia claro que todos esses males provinham disto – que toda felicidade ou infelicidade reside numa só coisa, a saber, na qualidade do objeto ao qual nos prendemos pelo amor. De fato, nunca surgem disputas por coisas que não se ama; nem há qualquer tristeza se as perdemos; nem inveja, se outros a possuem;nenhum ódio e, para dizer tudo numa palavra, nenhuma pertubação da alma (animus). Ao contrário, tudo isso acontece quando amamos coisas que podem perecer, como são aquelas que acabamos de falar. Mas o amor das coisas eternas e infinitas nutre a alma de puro gozo, isento de qualquer tristeza..."

segunda-feira, 2 de junho de 2008



PALAVRARIA – LIVRARIA-CAFÉ

CONVIDA PARA


MAFUÁ DE MALUNGO:

Bate-papo entre Ronald Augusto e Jaime Medeiros Jr.


11 de junho de 2008, quarta-feira, das 19h às 21h

Na Palavraria – Livraria-Café


Jaime Medeiros Jr é poeta porto-alegrense nascido em 1964. Tem no prelo, seu primeiro livro intitulado Na ante-sala. Médico pediatra. Participou da organização do primeiro Portopoesia. Hoje faz parte da produtora Portopoesia, organizadora da segunda edição do evento, que se realizará em outubro deste ano. Mantém com a poeta Deisi Beier o blog www.filhosdeorfeu.blogspot.com


O projeto Mafuá de Malungo, concebido por Ronald Augusto, prevê um encontro por mês até o final desse ano, ocasião em que o poeta convidado conversará com Ronald a respeito de suas obras.


quarta-feira, 28 de maio de 2008


hoje
comprei mel e canela
pras maçãs de amanhã

sonhei contigo
mas tudo se fez outro dia


maçãs, mel e canela
e depois
só um pouco de café para despertar

segunda-feira, 19 de maio de 2008


(foto: missa do orfanato - grupo corpo)


os pés não pisavam macio

se equilibravam entre

pedras e restos

a terra não era caminho

mas a sujidade

e o verde agora isento de vida

era a espera que cobria a pele

na água do poço


nem a luz acalma

a distância entre o fundo e a corda

que lhe alcaça o balde


quarta-feira, 14 de maio de 2008

domingo, 11 de maio de 2008


em meio

ao rumorejo do desejo

gentes

que a gente toca

vejo

e

por ora

me fixo no perseverante percevejo

que percebo sobre a mesa lindeira

lindeira aos liames do que almejo

lindeira aos lindos olhos em que me vejo



agora só

resta saber como te amar

te amar sem te querer

e como escapar

ao destino de me comportar só

aqui

lindeiro a ti ?


quarta-feira, 7 de maio de 2008


O poema do meu livro que o poeta Aldo referiu em seus comentários é:

na grama cheirosa
descansam tecidos


quarar amacia
fibras




Não sei se é do conhecimento dos leitores e dos visitantes do blog minha primeira publicação, pela editora Movimento, datada de dezembro de 2007, sob o título "Tramas de Orvalho". Ofereço a todos os versos que, cuidadosamente, ali constam e, a respeito, aí vai a impressão de outro poeta e leitor atento, Aldo Guido Votto, ao receber meu livro:



"Cara poeta,


Acabo de acabar, pela primeira vez, uma leitura do livro que gentilmente me presenteaste.


Caso fosse instigado a eleger um substantivo para sintetizar a poética das tuas "Tramas de Orvalho", muito provavelmente, optaria pelo abstrato 'modéstia'. E logo percebi, que, embora de súbito, teria combinado minhas impressões desta primeira leitura com as três acepções que o velho mestre Aurélio registro para o termo. Senão vejamos:


1. Ausência de vaidade, despretensão, desambição, simplicidade.


Embora não seja possível uma ausência total de vaidade em quem se expõe escrevendo e publicando, a pequena proporção deste sentimento na motivação do teu livro aparece já na capa evidenciada pela opção pelos tons escuros, a imagem em segundo plano sugerida mais que mostrada, e a silhueta das poucas libélulas e suas asas transparentes, como a porção viva do cenário inerte, em vez do esplendor de formas e exuberância de cores das borboletas.


Depois, o próprio título segue afirmando a simplicidade. Para quem já saboreou o poético da cena bucólica e matinal das teias de aranhas, invisíveis nas outras horas do dia, reveladas pelas gotículas do sereno absorvidas pelos fios deixados nos caminhos naturais de possíveis presas, salta o sentido transmutado pela tua autoria em 'tramas de erotismo'. E com quatro versos e oito palavras concedes ao leitor o direito de construir a descrição de uma sedução que se consuma na manhãzinha, inda que esta, eventualmente, não tenha sido tua intenção original, como tantas vezes ocorre com quem escreve.


2. Reserva, pudor, decência, gravidade, compostura.


Assim, me pareceu circunstância toda tua verve, mas em especial, aquela porção dirigida ao encontro de pares, ao amor erótico. Neste tema, embora perceptível a perplexidade prazerosa da vivência pessoal desta pulsão que todas as artes celebram ao longo dos séculos, da 'ânsia da vida por si mesma', toda a declaração é feita através de um cortinado, todo o manifesto é pouco mais que silencioso: o 'tsunâmi' está lá, apontado, mas não descrito.


3. Moderação, sobriedade.


O teu estilo de apontar o poético, sem sobrecarregá-lo de muitas qualificações, virtudes ou defeitos que sejam, de novo, concede o privilégio do acabamento ao leitor e é uma afirmação da moderação e da sobriedade.


Muito de beleza, muitíssimo do poético escondido no dia-a-dia, no detalhe, nos pequenos objetos, nas práticas mais prosaicas, está apontado, sugerido, exposto sem excesso de debrum ou exagero de pesponto, por ti no caderno 'o lugar'. Meu momento inestimável de leitor é a tua apropriação do verbo 'quarar'. A sonoridade e a impossibilidade de qualquer polissemia são um presente modesto, moderado e sóbrio ao leitor-co-autor das tuas 'Tramas...'. Para que tenhas uma idéia da idéia que me veio a respeito desta moderação, segue aí uma paráfrase, num estilo de mesmo sentido, mas direção oposta:



janela verde.


brilho branco.


dormem na relva


o organdi e a alpaca,


a flanela e o brim,


a casimira e o cetim,


a pelúcia e o percal,


a sarja e o fustão,


a cambraia, o algodão,


e o linho,


que relva já não é


e agora quara


para agarrar


o branco brilho


outra vez.



Isto é, possivelmente sobra texto para tentar emitir uma mensagem semelhante...


Bem, cara poeta, se me tivesses pedido uma sugestão para o teu segundo livro, penso que teria algo a ver com estas últimas reflexões. No meu caso espero que já tenhas recebido minha remessa do "Quatro Nomes", pensaria num segundo livro de mesmo sentido, mas direção oposta: mais modéstia e menos vaidade!!! E no teu, desculpa a ousadia, sugeriria exatamente o contrário: menos modéstia e mais exagero!!!


Obrigado pela satisfação em poder compartilhar contigo estes momentos de poesia.


Um grande abraço,


Aldo"



Nem preciso dizer o quanto feliz fico.


segunda-feira, 5 de maio de 2008


aguadas transitórias do pensar

gravam faces

sobre a face do nada

nada

esfacelado e grave

e a sombra dos dáctilos

sobre as àguas

finge formas

breves

feitas só

da recordação

do que se quer


terça-feira, 29 de abril de 2008


Santa Maria

mais uma vez

não muito mais que dezoito horas

tantas mortes depois -

fazer o quê ? -

e tudo ainda se põe

por trás às frestas dos afazeres

então

fui à casa de uma amiga

que hoje mora

na mesma rua em que morou minha tia

pedaço de verdade dissonante

lugar

ali

onde me ensinaram a sentir saudade


sábado, 26 de abril de 2008


lembrete: gostaríamos de alertar aos leitores do nosso blog

que se quiserem deixar algum comentário geral ao blog

podem utilizar o nosso livro de visitas
"deixe sua letra"

aceitamos críticas

aplausos e o que mais vier

um ab


o bulício do gás

da água na garrafa plástica

diz

natural

fugaz e fugidiamente

o quantum de sede

em que me imbeberei

antes

do puro úmido da saciedade


quarta-feira, 23 de abril de 2008

domingo, 13 de abril de 2008


(foto: Cia. de Dança Deborah Colker - Espetáculo "Casa")



era um vento ventoso

um vento teimoso

e insistente

vagando sobre o verde

vento danado

encantado

tingido de sangue

a revolver estrelas

a pipocar cascalhos

vento de insinuar


evaporações


era um vento de não caber em lugar

vento de se instalar

de fazer lembrar

que nem sempre o que venta

é de esquecer


sexta-feira, 4 de abril de 2008



(foto: gaia companhia de dança)



não perdôo certos refinasensos

umas nostalgias canhestras

disfarces guardados atrás das portas


não tolero enfarsantes corações

as frias mãos trêmulas antes do tapa

calabeiços devorantes

nuvens escuras mergulhadas em desculpas



não me estendo na ausência de fibra

na oculta homisfera do aperto na jugumar

na voz em tempestura surda



afundassombras

desassossegos



invento meus limites

meu cabimento



ilusório


domingo, 30 de março de 2008

um tantinho de: Manuel Bandeira


Oração a Nossa Senhora da Boa Morte


Fiz tantos versos a Teresinha...

Versos tão tristes, nunca se viu!

Pedi-lhe coisas. O que eu pedia

Era tão pouco! Não era glória...

Nem era amores... Nem foi dinheiro...

Pedia apenas mais alegria:

Santa Teresa nunca me ouviu!



Para outras santas voltei os olhos.

Porém as santas são impassíveis

Como as mulheres que me enganaram.

Desenganei-me das outras santas

(Pedi a muitas, rezei a tantas)

Até que um dia me apresentaram

A Santa Rita dos Impossíveis.



Fui despachado de mãos vazias!

Dei volta ao mundo, tentei a sorte.

Nem alegrias mais peço agora,

Que eu sei o avesso das alegrias.

Tudo o que viesse, viria tarde!

O que na vida procurei sempre,

- Meus impossíveis de Santa Rita -

Dar-me-eis um dia, não é verdade ?

Nossa Senhora da Boa Morte